quarta-feira, 18 de março de 2009

O PRINCÍPIO INTELIGENTE

O PRINCÍPIO INTELIGENTE

O PRINCIPIO INTELIGENTE

Desde tempos imemoriais o homem questiona a origem, a natureza e o destino do ser. De onde teria surgido o Espírito? Qual sua consistência? Qual sua destinação? A Doutrina Espírita responde a esses questionamentos segundo o princípio das causas primeiras, ou seja, espírito e matéria: as duas substâncias constituintes do Universo. Acima de ambos, porém, está Deus, gerador de todas as coisas.

Deus
Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas (LÊ, 1). A limitação das faculdades do homem não lhe permite compreender a natureza íntima de Deus; no entanto, segundo o axioma espírita, todo efeito tem uma causa (LÊ. 4),é a partir da observação dos efeitos, ou seja, da criação, que se pode remontar a Deus. Ao lançar os olhos à natureza, percebe-se em tudo uma manifestação de ordem e de harmonia, ou seja, de uma inteligência ordenadora do Universo. É assim que Jesus pelas obras, pelos prodígios que operava, dizia dar testemunho do Pai, e que, portanto, pelo efeito, pela criação de seres inteligentes, percebe-se o poder de uma inteligência causadora, e que permanece mantendo a harmonia da criação.

O Universo
A razão diz que o Universo não poderia fazer-se por si só, pois o acaso é inconcebível, deve, portanto, ser obra de Deus, da inteligência suprema. O Universo compreende a infinidade dos mundos que vemos e não vemos, todos os seres animados e inanimados, todos os astros que se movem no espaço e os fluidos que o preenchem (LÊ, Cap. III, item l, preâmbulo).
As leis divinas ou naturais governam o Universo do micro ao macrocosmo, das partículas intra-atômicas às colossais galáxias; tudo revela combinações e fins determinados e por isso mesmo, um poder inteligente.

Elementos Gerais
Em última análise, o Universo é formado por dois elementos gerais: espírito e matéria. E acima de ambos encontra-se Deus. Eis, então a chamada trindade universal. O que é matéria? O que é espírito? Trata-se de duas substâncias heterogêneas, que não se misturam nem se reduzem uma à outra; aquela, com suas propriedades, e este, com seus atributos. E assim que no dizer de Jesus o que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é Espirito (Jo, 3:6), ficando evidente uma distinção positiva entre espírito e matéria. Ao afirmar claramente que o corpo procede do corpo, proclama que o Espírito é uma realidade independente do corpo. Desta forma, a matéria em seu estado substancial é denominada Princípio Material, e o espírito o Princípio Espiritual.

Matéria
Deve-se geralmente a matéria como aquilo que tem extensão e pode impressionar os sentidos (LÊ, 22). Segundo seu estado de densidade ela pode ser medida, pesada ou percebida, no entanto, a matéria enquanto tal é inerte, passiva; ela não tem movimento próprio, não se auto-organiza, não se transforma por si mesma. Ela necessita de um agente inteligente que lhe dê sentido, forma, movimento e utilidade. É assim que o Princípio Material se individualiza, gerando a miríade de corpos que compõem o Universo, da estrutura atômica aos aglomerados galácticos. Sem a ação de um princípio inteligente, porém, a matéria permaneceria amorfa e perpetuamente dispersa no espaço sem fim. É assim que se formaram os Reinos mineral, vegetal, animal e nominal (1), todos por transformação do Princípio Material.
Nota:(l)—Encarados sob o aspecto material, não há senão seres orgânicos e inorgânicos;
do ponto de vista moral, há evidentemente, quatro graus (LÊ, 585).

Espírito
Como explicar o movimento dos átomos se a matéria é inerte? Como entender a vida se a matéria é passiva? Como explicar este poder de organização no Universo desde as partículas elementares?
Nada se move por si só. Tudo é gerado, nasce, agita-se, cresce e evolui porque existe uma inteligência criadora e mantenedora do dinamismo e da ordem do Universo. É assim que por espírito entende-se esse Princípio inteligente do Universo (LÊ 23), que tudo dinamiza.

Ao criar o Universo Deus, a inteligência suprema, plasmou a matéria. Nesse momento, quando já unida à matéria, a inteligência divina passa agora a atuar no Universo em forma de Princípio inteligente ou Princípio Espiritual. A inteligência permanece, portanto, na criação de forma imanente, ou seja, como uma qualidade interior que é permanente. Os seres não são gerados nem subsistem senão pelo influxo contínuo do princípio inteligente. É assim que esse princípio, de início incipiente, manifesta-se e evolui gradativamente, manifestando-se então desde os reinos inferiores da natureza, a partir do mineral, passando pêlos reinos vegetal e animal, até alcançar o reino nominal, quando atinge a racionalidade.

O princípio inteligente manifesta-se assim, das seguintes formas:
Reino Mineral: — Na fornia de movimento da matéria, pois o átomo já se agita por si só.
Reino Vegetal: — Através do germinar, nascer, crescer, enfim, em forma de vida.
Reino animal: — Manifesta-se através do instinto e das sensações. Reino Hominal: — Sob a forma de consciência, de racionalidade.

Espíritos
Podemos dizer que os Espíritos são individualizações do princípio inteligente, como os corpos são individualizações do princípio material; a época e a maneira dessa formação é que desconhecemos (LÊ 79). É assim que o Principio Inteligente, já individualizado, vai absorvendo as experiências pelas várias instâncias da natureza, para se constituir em Espírito, ao longo dos milênios, sob os auspícios da Racionalidade. Agora o Espírito toma consciência de si; conseqüentemente surge o livre-arbítrio e inicia então o desenvolvimento de seus atributos essenciais, ou seja a memória, a vontade, a inteligência, o pensamento contínuo, o conhecimento do bem e do mal.

Já na condição de Espírito, simples e ignorante, iniciará suas encarnações como homem, nas circunstâncias mais primitivas, até experimentar os benefícios da vida social organizada. Desse estágio evolutivo partirá para a angelitude. num processo longo em que desenvolverá as asas da sabedoria e do amor. No caminho, libertar-se-á parcialmente do jugo da matéria e alcançará, afinal, as culminâncias da vida espiritual, para conquistar a condição de co-criador em grau maior. É assim que no Universo tudo se encadeia, do átomo ao arcanjo... (LÊ, 540), os homens elevados à condição de arcanjos, com a mente e o coração purificados, passam a ver e a compreender a realidade não só pela razão, mas pela intuição.

Nesse momento eles conhecem a perfeição do Universo, aquela perfeição que desde o princípio já estava imanente no mais insipiente ser, mas que na matéria não estava manifesta.

Sendo o Espírito a nossa própria essência, o que somos realmente, com toda a nossa personalidade, é evidente que o Espírito não é sobrenatural, mas natural, um elemento vivo e dinâmico da natureza. Quando tomamos consciência dessa concepção espírita do mundo e do homem, a realidade se impõe à mente, afugentando as confusas e incongruentes fabulações teológicas. E assim que o Princípio Inteligente estagia nos vários reinos, de forma a adquirir cada vez mais experiências, com vistas à evolução.


Nota
— Por espírito (e) entende-se o Princípio Inteligente Universal
— Por Espírito (E) entende-se os seres inteligentes da Criação.

As Leis Morais — As Leis de Deus
Léon Denis explica esse fluxo do princípio inteligente na expressão poética: Na planta, a inteligência dormita; no animal, sonha; só no homem acorda, conhece-se, possui-se e torna-se consciente; a partir daí o progresso, de alguma sorte fatal nas formas inferiores da natureza, só se pode realizar pelo acordo da vontade humana com as leis Eternas. Temos assim o aspecto imanente de Deus, que se projeta na Sua criação e a ela se liga, fazendo-se espontaneamente a Sua alma e a Sua lei. Efetivamente as Leis Morais — tema deste curso — consistem na própria imanência do princípio divino na criação, cujo ápice consiste na moralidade. É assim que a Lei Divina ou Natural permanece na natureza, como expressão da essência divina a reger o Universo material e moral.

À medida que o Espírito evolui, ele tende a vivenciar mais plenamente essas leis. É assim que o ser passa a viver a Lei da Adoração, como necessidade de voltar sua consciência para Deus e para sua interioridade. Nesse percurso revela-se a Lei do Trabalho como necessidade de o princípio inteligente dinamizar seu potencial de criação.

Na Lei de Reprodução rege-se o desígnio divino da expansão do Universo e da criação.

Na Lei da Conservação assegura-se a manifestação da vida, como tendência da essência divina a manter-se eternamente.

A Lei da Destruição, pela própria limitação que impõe aos seres, faculta a superação e evolução do princípio inteligente.

A Lei de Sociedade, a traduzir o mandamento de amor ao próximo, ao reger a relação dos homens entre si, permite no convívio social a integração dos seres na unidade da essência divina.

A Lei do Progresso revela-se como a perfeição do pensamento divino que está em potência em cada criatura. Caracteriza-se a Lei da Igualdade pela necessidade de expressar-se o princípio inteligente em sua universalidade, através da coletividade de consciências que comunguem entre si.

Revela-se a Lei da Liberdade como a autonomia que cada criatura possui de constituir-se a si mesmo, de revelar-se a si mesmo e de auto edificar-se no itinerário da perfectibilidade. Revela-se plenamente a Lei de Justiça, Amor e Caridade como expressão máxima da centelha divina, toda ela essência pura de amor, e que só satisfaz-se na exteriorização de si mesma em função do próximo. É assim que a Perfeição Moral incita cada ser a revelar-se pelo autoconhecimento da interioridade, quando os indivíduos passam a pautar sua conduta, sustentados pela autoridade moral que os caracteriza. Nesse momento pode-se dizer que houve o encontro do Filho com o Pai. pela glória de sua consciência no santuário de seu coração, e assim poderá dizer com Jesus: Eu e o Pai somos um (Jo 10:30).

Bibliografia:
LÊ, Livro Primeiro, Cap. III, item l
LÊ, questões l, 4, 17, 2, 27, 79, 540 e 585

Um comentário:

Jêner Teixeira disse...

Gostei da interpretação. Facilitou meu entendimento.