quinta-feira, 3 de junho de 2010

ENTÃO O SUDÁRIO É FALSO ?

Sylvio Ourique Fragoso





Parte I



O Cardeal Anastácio Ballestrero, arcebispo de Turim, Itália, à vista dos resultados dos testes de datação pelo carbono-14, "anunciou que o Sudário venerado desde o século XIV, foi tecido entre os anos de 1260 e 1390 depois de Cristo".

Não é nosso propósito fatigar o leitor repetindo o que já dissemos anteriormente (ver R.I.E. de abril e maio de 1981). Mas as últimas notícias veiculadas pela imprensa alardeando que o Sudário é falso, impõem-nos uma retomada do assunto. Vamos então dar uma repassada sobre o tema antes de lhe tocarmos o cerne.

O Sudário é um tecido inteiriço, de linho, com 4,30m de comprimento por 1,10m de largura, onde está estampada em sépia monocromática a imagem de um homem com todas as aparências de haver morrido crucificado, após sofrer inúmeras sevícias. Esse pano vem sendo guardado desde o século XVI em Turim, Itália, pertencente que era à Casa de Savóia. Com a morte do Rei Humberto, em 1983, a relíquia passou a pertencer ao Vaticano. Embora a Igreja não o afirmasse, admitia-se que o Sudário fosse a mortalha que envolveu o corpo de Jesus em seu sepultamento, conforme narram os textos evangélicos (Mt 27,59; Mc 15,46; Lc 23,53; Jo 20,5-7). Mesmo as referências bíblicas terminando aí, ao longo da história sempre se ouviu falar de um pano que conteria impressa a imagem de Jesus. Quem não conhece o episódio da Verônica, onde se diz que uma mulher, estando o Cristo a caminho do Calvário, irrompeu da multidão para enxugar-lhe o rosto suarento e ensangüentado, notando após que na toalha que usara a face de Jesus havia sido retratada? No entanto, em vão se buscará nos Evangelhos essa narrativa. Ela faz parte do que a Igreja chama de "Tradição". Mas o fato é que antes do século VII não havia tradição nenhuma sobre isso e nas procissões que então se faziam na Sexta-Feira Santa a figura da Verônica (nome que significa "verdadeira imagem") não aparecia. O que teria levado as pessoas a imaginar esse episódio que a própria Igreja aceitou e divulgou? É muito pouco provável que os soldados romanos deixassem alguém chegar tão perto de um condenado a caminho do suplício. Mas como toda lenda parte de um fato concreto, é possível que a piedosa legenda da Verônica tenha tido origem em algum tipo de tecido que se dizia conter a imagem de Jesus. O fato é que as referências sobre esse misterioso pano vêm de muito mais longe. Tornemos ao texto bíblico. Diz Mateus que José de Arimatéia "tomando o corpo de Jesus amortalhou-o num asseado lençol". Marcos acrescenta que José, tendo comprado um lençol e tirando o corpo da cruz, amortalhou-o no lençol antes de depositá-lo no sepulcro. Lucas também diz que o corpo foi amortalhado num lençol. Só João usa o plural: Tomaram pois o corpo de Jesus e o ligaram envolto em lençóis. Mais adiante João dá outros detalhes: no domingo, quando Maria de Magdala e outras mulheres foram até o sepulcro para terminar a unção determinada pelo rito judaico e o encontraram vazio, correram até os discípulos para contar a novidade. Pedro e João, alarmados, voaram até lá. João chegou primeiro, mas não teve coragem de entrar no túmulo. Pedro, valente que era, desceu nele e viu postos no chão os lençóis e o lenço que estivera sobre a cabeça de Jesus, o qual não estava com os lençóis, mas estava dobrado num lugar à parte. Parece que os tradutores não foram muito fiéis à narrativa de João. Onde ele fala em othonia (faixas) traduziram por "lençóis" e onde vem escrito sindon verteram como "lenço". Mas sindon não pode ser apenas um lenço, tanto que Marcos (14,51-52) emprega esse mesmo termo para descrever a roupa que um discípulo (talvez ele próprio) deixou no Monte das Oliveiras quando a turba que prendeu Jesus quis gadunhá-lo também. De qualquer forma, o fato do sindon estar, no túmulo vazio, dobrado num lugar longe das othonia, já sugere algo de especial.

Se as referências evangélicas sobre o Sudário terminam no sepulcro deserto, as citações históricas, ainda que fragmentadas, prosseguem. Assim é que no ano de 325 Eusébio de Cesaréia escreveu uma História da Igreja, onde vem descrito o ocorrido com Abgar V, rei de Edessa. Essa história foi confirmada e ampliada por muitos manuscritos descobertos nas ruínas de um mosteiro em Nitrian, Egito, em 1840. Em síntese é o seguinte: Em Edessa (atual Urfa, na Turquia) reinou, de 13 a 50 de nossa era o rei Abgar V, que sofria "de uma doença incurável". Após a morte de Jesus os discípulos para lá enviaram Tadeu, um dos setenta, com a missão de levar ao rei um tecido (mandylion) onde estaria estampada a verdadeira imagem do Cristo feita "não por mãos humanas". Em presença do mandylion Abgar V teria sido curado, convertendo-se ao Cristianismo. Ocorre que após a sua morte subiu ao trono seu filho Ma’nu VI, que determinou a volta do paganismo. Quando Ma’nu assumiu o poder o evangelizador Tadeu já havia morrido e ninguém nunca mais soube o que foi feito do mandylion. Mas, segundo consta, o tecido foi descoberto, entre 525 e 544, num espaço oco por trás das pedras que formavam o arco de uma das portas da cidade. O fato é que no ano 544 o historiador sírio Evagrius informou que a relíquia fora usada para proteger a cidade do ataque do rei persa Chosroes. A razão da descoberta do mandylion foi, provavelmente, a enchente que quase destruiu Edessa em 525. Foi então que o imperador Justiniano mandou construtores até aquela cidade os quais, encontrando as muralhas muito prejudicadas pelo tempo e pela enchente, trataram de reconstruí-las. Nessa oportunidade o pano com a imagem de Jesus teria sido encontrado juntamente com uma peça de cerâmica e uma tocha, que ainda estaria acesa(!). Parece certo que a partir daí começaram a surgir as primeiras cópias do mandylion, pois notícias dele provinham de várias cidades, dando ciência de que a verdadeira relíquia encontrava-se em Melitene, em Hierápolis, em Camuliana e até em Mênfis, no Egito. Mas parece que o tecido autêntico permaneceu em Edessa, pois que, no século VIII, Atanásio bar Gumayer recebeu-o como penhora de uma dívida, até o dia em que Abraão, bispo de Samósata, conseguiu obtê-lo e levá-lo, para desgosto do povo de Edessa, até Constantinopla, onde consta ter permanecido de 944 a 1204.

Naquele ano de 1204 a Quarta Cruzada tomou Constantinopla, saqueando-a de todos os seus tesouros e relíquias. Robert de Clari, o historiador dessa Cruzada, ao descrever as relíquias que então ali se encontraram, diz que na igreja de Minha Senhora Santa Maria de Blachernae estava guardado o sydoine em que Nosso Senhor foi envolvido e no qual a imagem de Nosso Senhor podia ser vista com toda a clareza.

Mas os cruzados arrasaram Constantinopla e ninguém ficou sabendo o que foi feito do Sudário.

Ora, ocorre que 80 anos antes disso dois cavaleiros franceses, Rugh de Payens e Geoffrey de Saint-Omer, haviam fundado, com outros companheiros, a Ordem dos Cavaleiros Templários, que acabou por conseguir grande prestígio e poder a ponto de ser depositária de muitos tesouros reais e de relíquias religiosas. E foram os Templários que financiaram a Quarta Cruzada, responsável pelo desaparecimento do mandylion de Constantinopla.

A Ordem dos Cavaleiros Templários constituía uma sociedade secreta e assim seus membros acabaram sendo suspeitos de heresia, pois que, lá por 1300, andaram circulando uns boatos de que os Templários adoravam uma cabeça que representava um homem barbado que eles veneravam como o seu Salvador... E na madrugada de 13 de outubro de 1307 o templo daquela Ordem foi invadido pelos soldados do rei da França após muitas horas de luta com os bravos Cavaleiros. Lá dentro nada foi achado, mas alguns Templários, torturados pela Inquisição, confessaram que a figura de uma cabeça, iluminada por tochas, devia ser por eles olhada rapidamente, nos rituais de iniciação, após o que deveriam prostrar-se adorando-a, e que apenas o Grão-Mestre e os membros mais antigos da confraria sabiam ao certo do que se tratava. Essa cabeça foi descrita por Estevan de Troyes, um dos torturados, como uma cabeça de homem muito pálida e desbotada, com uma barba grisalha.

Sem querer afirmar nada, podemos identificar essa descrição com o que se vê, ainda hoje, no Sudário. De qualquer forma, embora a tal cabeça não fosse encontrada quando os soldados conseguiram invadir o templo da Ordem, os grão-mestres Jacques de Molay e Geoffrey de Charnay foram queimados próximo à Notre-Dame em 19 de março de 1314. Morreram como heróis, recusando a condição de heréticos e reafirmando sua fé no Cristianismo.

Em 1353 um descendente de Geoffrey de Charnay, quase se homônimo, Geoffrey de Charny, tornou-se conhecido como proprietário do lençol fúnebre de Jesus, embora nunca explicasse como o obtivera. E foi Charny que, naquele ano, mandou construir uma igreja em Lirey, onde o Sudário ficou depositado, a bem dizer escondido, pois que até então jamais fora exposto publicamente. Mas Charny morreu em combate e então sua viúva, Jeanne de Vergy, passou a fazer as primeiras exibições públicas da relíquia, o que provocou uma divergência de opinião entre o clero sobre a autenticidade do Sudário principalmente porque a viúva também não contava como seu marido o conseguira.

A partir daí a história do Sudário é conhecida. Ele continuou com a família Charny até 1453, quando foi cedido ao Duque Luís de Savóia. E a Casa de Savóia foi sua proprietária até 1983, quando morreu o Rei Umberto II da Itália, que se achava exilado. Depois disso o Sudário ficou pertencendo ao Vaticano embora prossiga sendo guardado em Turim, onde se acha desde 1578, de lá somente saindo, às escondidas, em setembro de 1939 para ser guardado no Mosteiro de Montevergine, onde permaneceu oculto até que acabasse a Segunda Guerra.

Sobre o Sudário, sabe-o o leitor, muito já se falou e escreveu, principalmente após a famosa fotografia de Secondo Pia, em 1898, que mostrou que o Sudário é um autêntico negativo fotográfico, coisa que a ciência até hoje não explicou. A partir porém dos recentes testes de datação pelo carbono-14 toda a imprensa afirmou estar comprovada a falsidade do Sudário, que não passaria de um embuste praticado no século XIV. Mas acompanhando o noticiário dos jornais pode-se perceber uma certa leviandade com que o assunto foi tratado. Assim é que O Estado de São Paulo, de 27/08/88 estampou em manchete: Para ingleses, o Sudário é falso. É que o jornal londrino Evening Standard noticiara que cientistas da Universidade de Oxford revelaram que os testes feitos por eles no Santo Sudário (...) deram resultados contrários à crença geral. Mas o correspondente de O Estado consultou os catedráticos daquela instituição e teve como resposta que eles não sabiam de onde o Standard tirara aquela idéia. Na mesma data A Folha de São Paulo publicava: Cientistas dizem que Sudário é falso. E reproduziu a notícia sensacionalista do jornal inglês. Em 17/09, menos de um mês depois, novamente O Estado de São Paulo volta ao assunto declarando: Sudário: o enigma persiste. Em 19/09 o Jornal da Tarde afirmou: A confirmação dos cientistas: O Santo Sudário é falso. Esse jornal estava reproduzindo, segundo declara, o que saíra publicado no Sunday Times, de Londres. Em 28/09 é ainda O Estado quem estampa que a Igreja também admite dúvidas sobre o Sudário. E em 14/10 esse mesmo noticioso confirmava: Sudário é uma falsificação, admite a Igreja. E explica que o cardeal Anastácio Ballestrero, arcebispo de Turim, à vista dos resultados dos testes de datação pelo carbono-14, anunciou que o Sudário, venerado desde o século XIV, foi tecido entre os anos de 1260 e 1390 depois de Cristo (sic).

Todos os jornais, todos os noticiários da televisão estiveram empenhados em divulgar essa novidade, como era mesmo de se esperar que o fizessem. Mas, perguntamos nós, e todos os demais testes, todos os exames exaustivamente praticados naquele tecido em épocas anteriores, por tantos cientistas de renome mundial, particularmente os da Comissão de 1978, que reuniu no mínimo 400 homens de ciência, os quais ficaram todos convencidos da autenticidade da relíquia? Seriam eles uns papalvos que se deixaram enganar por um embromador da Idade Média? O sistema de datação pelo carbono-14 poderia, sozinho, invalidar as centenas de outros testes já realizados, poderia anular toda a evidência científica acumulada? Se o leitor permitir, é o que veremos.

novembro/1988

ENTÃO O SUDÁRIO É FALSO ?

Parte II

Se o leitor está lembrado, ficamos de ponderar se os recentes exames pelo carbono-14 efetuados no Sudário de Turim e que lhe teriam atestado a falsidade, seriam suficientemente confiáveis de modo a invalidar as centenas de outros testes realizados naquele tecido. Embora reconhecendo nossa indigência cultural, tentemos a empreitada socorrendo-nos, para tal, de quem mais sabe.

A técnica de datação pelo método do carbono-14 foi desenvolvida em 1946 pelo Dr. Willard Libby. Ela consiste no seguinte: é sabido que todos os seres vivos possuem um componente básico que é o carbono (C12), do qual existe um isótopo radioativo, o carbono-14 (C14). O isótopo é um átomo que se caracteriza por um número de massa e um número atômico determinados. No caso do carbono-14 é conhecido o tempo em que a quantidade original fica reduzida à metade por desintegração. Esse tempo é chamado meia vida e no caso do C14 ela é de 5.760 anos. Isto quer dizer que um grama de carbono-14, ao fim daquele período estará reduzido a meio grama. O carbono-14 forma-se na alta atmosfera e desce à Terra de forma que acaba sendo absorvido pelas plantas, pelos animais e pelo homem. Tão logo o organismo venha a morrer, tão logo uma planta seja colhida, essa absorção deixa de ser feita e o carbono-14 inicia aquela desintegração que mencionamos acima e isto permite que a idade do ser examinado seja calculada, tomando-se por base a quantidade de carbono-14 que ele ainda guarde. Foi o que sempre se pensou em fazer com o Sudário: examinando-se as fibras do linho por este método, seria possível conhecer-se a data em que foi colhido, ocasião em que, logicamente, deixaria de absorver o C14.

Mas se a coisa é tão simples - perguntará alguém - por que não se fez esse teste no Sudário há mais tempo?

Por uma só razão: é que a coisa não é tão simples. A datação pelo carbono-14 é um tipo de exame que inutiliza a peça analisada. No caso do Sudário, por exemplo, o teste só seria confiável se se pudesse contar com um pedaço do linho de, pelo menos, 0,30 x 0,30 m, retalho esse que seria, simplesmente, incinerado. Além disso, mais dois ou três retalhos iguais deveriam ser empregados para validação do teste e, conseqüentemente, inutilizados. Claro, pois, que nessas condições nem a Casa de Savóia, nem o Vaticano, puderam nunca autorizar o exame. Só que, recentemente, uma nova técnica para datação pelo carbono-14 começou a ser desenvolvida. É o chamado método por aceleração, que aceita um pedaço bastante menor da peça a ser examinada. E foi este o sistema que se usou para o Sudário de Turim. Foi também aí que a coisa se complicou ainda mais. Se no teste tradicional já se admite uma margem de erro de 200 anos, no processo por aceleração essa margem fica muitíssimo aumentada. Ora, o Sudário mede 4,30 m por 1,10 m e dele só se retirou, para exame, um pedacinho de um centímetro por sete centímetros, o qual foi dividido em três, recebendo cada universidade um retalhozinho menor que um selo de correio. No entanto o próprio Dr. Libby, criador do teste, alerta que os resultados só serão válidos se se puder contar, na peça a ser examinada, com pelo menos dez gramas de carbono puro! Razão teve o Pe. Rômulo Cândido, especialista em História da Igreja, para afirmar que o Vaticano foi precipitado ao aceitar a "prova" da falsificação. Também o Dr. Walter Demétrio Gonzales, do Departamento de Geofísica e Aeronomia do Instituto de Pesquisas Espaciais, único cientista brasileiro integrante da Associação Internacional de Estudiosos do Sudário de Turim, protestou contra aquele resultado. Diz ele que, certamente, todos os seus colegas que integraram a famosa delegação de 1978 farão protestos iguais. Também o Dr. Eurípedes Cardoso de Menezes, autor de O Santo Sudário à luz da Ciência, chegou a escrever ao Cardeal Ballestrero reprovando a aceitação de um relatório "científico" que nem ao menos foi assinado pelos até agora desconhecidos investigadores.

O Dr. Walter Demétrio vai ainda mais fundo: afirma ele, com toda a razão, que para a datação do carbono-14 há que se levar em conta a variação da quantidade desse isótopo na atmosfera desde o século I. E segundo ele, no primeiro século de nossa era houve um pico de atividade solar responsável pela baixa do carbono-14 na atmosfera, enquanto que no século XV ocorreu um fenômeno inverso. Claro, pois, que tudo isso teria que ser considerado no exame que se fez. Mas não é só. A própria história do Sudário, ao longo dos séculos, seria capaz de alterar a composição química do carbono que ele contenha. O Sudário esteve exposto, anos e anos, naquelas frias e úmidas igrejas medievais (ainda que levemos em conta a sua história só de 1350 para cá). Nesses locais, mal ventilados, multidões de fiéis enchiam o ar de dióxido de carbono e as velas e círios acesos enfumaçavam o ambiente. Houve um incêndio em 1532 que atingiu a caixa de prata em que a relíquia estava guardada, derretendo-a e incendiando o tecido. Tanto o fogo como a água que foi jogada nessa caixa deixaram marcas no Sudário, visíveis até hoje e hão de ter arrastado e alterado as partículas de carbono. É também essencial, para que aquele teste seja válido, que não haja nenhuma outra matéria orgânica misturada na peça em análise. No entanto a microscopia anteriormente realizada havia detectado uma enormidade de partículas minerais além de fragmentos de cabelos, cera de vela, fibras de várias plantas, musgos, fungos e pólen. Imaginemos ainda quantas mãos tocaram o Sudário, quantas bocas o beijaram, em quantas procissões foi conduzido ao ar livre. Tudo isto faz com que os testes realizados nos minúsculos fragmentos do tecido sejam de validade altamente duvidosa. Como, pois, a partir dos exames feitos agora, havemos de invalidar as conclusões a que chegou aquela Comissão de 1978? Por exemplo: Max Frei, um criminologista suíço que conquistou renome internacional pela sua habilidade de analisar substâncias microscópicas, é denominado o Sherlock Holmes do Sudário. No exame que realizou no tecido ele encontrou todas aquelas partículas minerais, cera, fibras, musgos, etc., que mencionamos acima. Mas o mais importante em suas descobertas foram os grãos de pólen. O pólen é aquela espécie de "poeira" que sai das plantas floríferas, com função fecundante. O pólen pode manter suas características por milhões de anos e sob um microscópio eletrônico revelam características tão perfeitas que é possível determinar, com absoluta certeza, a espécie de planta que os produziu. Seria possível, por essa análise, saber se o Sudário jamais saíra do Mediterrâneo ocidental, onde se sabe que ficou desde o século XIV ou se estivera em outras regiões do globo. Pois Max Frei encontrou no tecido pólen de plantas halófilas só existentes nas regiões desérticas do Vale do Jordão. Se o Sudário não provém dessa região, o falsário que o produziu deve tê-lo conduzido até lá, na certeza de que, seis séculos mais tarde, a ciência haveria de arranjar um modo de provar-lhe a fraude se tais cautelas não fossem tomadas a tempo. Na verdade pelo menos 32 espécies de plantas só existentes até hoje na Palestina deixaram sua presença consignada no Sudário, além de oito tipos de plantas mediterrâneas de presença compreensível no tecido pela história da relíquia na França e na Itália.

Além do Dr. Max, o Professor Raes, da Bélgica, encontrou de mistura com as fibras de linho da relíquia resquícios de um tipo de algodão de inquestionável procedência do Oriente Médio, o que prova que o mesmo tear em que o Sudário foi feito servira para a confecção de outros tecidos, elaborados naquela região. Que gênio terá sido o tal falsário!

A Comissão de cientistas de 1978, já referida, realizou 140 testes no Sudário, empregando a mais alta e sofisticada tecnologia que se conhece: análise química, análise termográfica, epidiascopia, espectrometria de massa, microespectrofotometria, reflectância, micro-sondagem, filtragem da imagem por estroboscopia, microdensitometria, fotomacrografia e fotomicrografia, fluorescência por raios X e sei lá que raios mais. Só os exames de raio X com fluorescência, diz o Dr. John Heller, forneceram cerca de mil informações! O fato é que muitos dados constantes do Sudário são absolutamente invisíveis a olho nu. Que espécie de falsário foi esse que pintou, no século XIV, o que só seria visto no século XX e assim mesmo através de toda essa traquitana científica?

Estão nesse caso as duas moedas sobre os olhos da imagem, identificadas como leptos, moedas mandadas cunhar por Pôncio Pilatos e que, por conseguinte, só circularam entre os anos de 26 e 36 de nossa era.

Os sinais dos cravos nos pulsos, sobre os quais já falamos em 1981, por esta Revista, contrariam toda a iconografia que se conhece desde a antigüidade, pois que estão localizados nos pulsos e não nas palmas das mãos. No entanto está provado ser absolutamente impossível manter-se alguém na cruz fixado pelas palmas das mãos. Mas um cravo, espetado à altura da primeira dobra do pulso vai cair, naturalmente, no chamado Espaço de Destot, alargando esse espaço pela compressão dos ossos que não se quebram por esta forma mas que se apertam e oferecem suficiente resistência para suster um corpo. E há um detalhe extra: um cravo penetrando aquela região do pulso vai, infalivelmente, ferir o nervo mediano pela sua parte interna, que é sensitiva (o que causaria uma dor indescritível). Mas como esse nervo é também um nervo motor, sua estimulação mecânica produzida pelo cravo iria excitar os músculos tenarianos, fazendo com que o polegar se encolhesse junto à palma da mão. Examinemos agora as fotos do Sudário: nelas os polegares não aparecem. No entanto, exames realizados por computadores provaram que esses dedos não foram apenas omitidos daquilo que poderia ser uma pintura. Eles estão presentes na imagem da Mortalha, mas recolhidos contra as palmas das mãos. Qual o falsário que poderia fazer isso?

E a presença de terra, invisível a olho nu, mas detectada pela espectrometria, que se encontra nos pés, nas chagas dos joelhos e no rosto, mostrando que o Homem do Sudário caminhou descalço, caiu, ferindo seriamente os joelhos e, ao cair, bateu o rosto contra um chão poeirento? E a chaga do peito, cujas dimensões coincidem exatamente com as das lanças da infantaria romana? E as centenas de marcas da flagelação, que têm o tamanho preciso das plumbatae que era costume colocar nas correias do flagrum romano? E note-se que este instrumento, embora figure em antigas moedas romanas, só recentemente foi examinado em suas exatas proporções através de um exemplar autêntico descoberto nas ruínas de Herculano. E o achatamento da parte dorsal da imagem? Os cientistas puseram um homem, de porte igual ao do Homem do Sudário, deitado nu sobre uma mesa com tampo de vidro. O achatamento que se apresentou em seu dorso foi mensurado e comparado com o da imagem da Mortalha: são matematicamente idênticos.

E, para abreviarmos, o mais surpreendente: a imagem do Sudário, quando examinada pelo VP-8 Analisador de Imagens, apresenta uma informação tridimensional! Nenhum cientista, até hoje, encontrou explicação para esse fenômeno, nem artista nenhum, por eles convidado, conseguiu produzir uma imagem que provocasse tal efeito. A única figura que se conhece no mundo, seja pintura ou retrato, a única imagem bidimensional que se apresenta em três dimensões no VP-8 é a do Sudário. E a explicação para isso ninguém conhece.

E as lesões visíveis apenas sob luz ultravioleta? E a exsudação de hemoglobina e de soro nas bordas das feridas, detectáveis apenas pelo exame de fluorescência? Tudo isto e tanta coisa mais foi que levou os cientistas físicos que examinaram o Sudário a uma conclusão única: a imagem que ele apresenta não pode ser o resultado de olho/cérebro/mão.

Que mais?

Parece que só uma conclusão se impõe: o Sudário não é uma falsificação. Se o Homem que ele retrata é Jesus mesmo, é outro problema (embora técnicos da Faculdade de Ciências da Universidade de Turim, através de cálculos estatísticos, terem concluído que a possibilidade do Homem do Sudário não ser Jesus é de 1 em 225 bilhões). Mas, sejam os testes recentes do carbono-14 válidos ou não (e parece que não o são, conforme razões expostas), um fato é inegável: em alguma época da humanidade um homem de 1,81 m de altura, tipo mediterrâneo clássico, de barbas e cabelos longos, foi esbofeteado com violência, foi barbaramente açoitado por duas pessoas que usavam chicotes em tudo idênticos ao flagrum romano, recebeu sobre a cabeça alguma coisa que produziu múltiplos ferimentos puntiformes que provocaram abundante sangramento, carregou um objeto áspero sobre o ombro direito, que alargou as chagas da flagelação, caiu, ulcerando os joelhos e foi crucificado pelo método romano, sendo que, depois de morto mas ainda em posição vertical, recebeu no peito um lançaço de uma lancea romana, cujo ferimento fez verter sangue e fluido sangüíneo, sendo este último conseqüente da flagelação sofrida anteriormente sobre o tórax. Depois esse homem esteve envolto no Sudário por um tempo não superior a 72 horas (os vapores amoniacais do cadáver são visíveis no tecido, mas teriam manchado a imagem se o tempo de exposição fosse maior). E por algum processo que não se explica, seu corpo produziu uma oxidação acidodesidratante do linho, criando uma carbonila cromófora responsável pela formação da imagem, que contém, sem se falar na perfeição anátomo-patológica, uma informação tridimensional detectável pelo VP-8.

Quem era esse homem, quando, como e por que tudo isso ocorreu? Essas, pensamos nós, as perguntas que devemos fazer, pois são essas as respostas que nos faltam.

Obras Consultadas:

Barbet, P. - A Paixão de Cristo Segundo o Cirurgião - Edições Loyola.

Baschera, R. - O Santo Sudário - Editora Tecnoprint.

Heller, J. H. - O Sudário de Turim - Editora José Olympio.

Stevenson, K e Habermas, G. - A Verdade sobre o Sudário - Edições Paulinas.

Wilson, I. - O Santo Sudário - Editora Melhoramentos.

dezembro/1988

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