domingo, 8 de janeiro de 2017

Marcus Vinicius de Azevedo Braga: "A Carne"

Enquanto dirigia no centro do Rio de Janeiro, retornando do trabalho, vi em um muro a seguinte inscrição: “Se a carne é fraca, por que perdemos sempre para ela?”. A reflexão sobre essa pérola estampada na paisagem urbana me fez recordar, divagando na direção, de como essa expressão, “a carne é fraca”, serve para nos justificarmos, perante nós e perante os outros, por deslizes, erros e vacilos. Uma muleta diante do arrependimento e da derrota.

Invocamos a carne é fraca como indicação de que a intenção de acertar é boa, mas as forças atávicas, a animalidade oriunda da carne nos suplanta, nos conduzindo à conduta reprovável, de forma irresistível. Uma visão de culpabilidade, de castigo, justificativas e até de um certo puritanismo, que ignora a nossa condição humana, frente aos desafios e que as lutas são diárias, para todos. Errar e cair faz parte do nosso processo de evolução. 

Kardec não desconsiderou essa discussão. Pelo contrário, trata dela de forma bem interessante no livro “O céu e o inferno”, e, nesse sentido, destaco o seguinte trecho: “Pode-se, portanto, admitir que o temperamento é, pelo menos em parte, determinado pela natureza do espírito, que é causa e não efeito. (...) Justificar seus erros pela fraqueza da carne é apenas um subterfúgio para escapar à responsabilidade. A carne só é fraca porque o espírito é fraco, o que reverte a questão, e deixa ao espírito a responsabilidade de todos os seus atos”.

Colocando assim a gênese das questões no espírito, que em última instância somos nós, na estrada da eternidade. Mas, voltemos ao muro... Se tudo está no espírito, como responsável, por que perdemos para as tentações chamadas da carne, fraca por ser sem relevância? A carne aqui representa a inserção no mundo material, suas influências, rompendo essa dicotomia corpo-espírito, mostrando de que forma a realidade concreta nos molda e por nós é moldada.

Perdemos pois desconsideramos a carne, tentando separá-la da matéria como caixas herméticas. Na senda evolutiva nesse mundo, na carne, interagimos com a realidade que se apresenta, crescendo com ela. A cada encarnação apresenta-se um novo cenário, que nos exige mudanças interiores e exteriores, construindo assim o espírito que necessitamos. Inseparável, a relação espírito-matéria é a fonte do crescimento espiritual, não cabendo o desprezo pela vida material, nem o apego excessivo a esta.

A carne não é fraca. Ela é forte como instrumento que testa as nossas fraquezas, que nos serve de desafio para aferir nosso crescimento, como prova de superação, e não devemos subestimá-la. Pelo contrário, perdemos para ela pela nossa fraqueza, como ressalta Kardec, em colocar no espírito a causa, responsável pelos seus atos, mas não devemos desconsiderar a máxima da proporcionalidade do fardo que recebemos com as nossas capacidades.

Eis a questão. Não devemos subestimar os fardos, o ambiente e a sua influência. A nossa vontade, quando submetida à prova, pode capitular, e devemos atentar para as provas a que nos habilitamos, sabendo se poderemos encarar a derrota, levantar e dar a volta por cima, sem colocar na fraqueza da carne a culpa por tudo. Por vezes abraçamos fardos múltiplos e simultâneos e caímos, justificando com a desculpa da carne fraca. Os depoimentos de Espíritos, após a desencarnação, são cheios dessas falas.

Só dizer que tudo é culpa do espírito pode ser um discurso também muito cruel com aquele que cai. Quem está na prova, correndo à frente do “Rolo compressor” das dificuldades, sabe que não é fácil e por isso encarnamos, quantas vezes forem necessárias, na busca do aperfeiçoamento. Não cabe “a carne é fraca” para quem se justifica, mas também para quem acusa.

Desse modo, fugindo de uma visão mais pecaminosa, temos o espírito presidindo os processos e lutas, na jornada terrestre na carne, que nos serve de instrumento para os desafios da evolução. Ambos são fortes! O espírito que se supera e surpreende, a cada dia, e a carne, que por vezes nos derruba para levantar de novo. É um processo de crescimento e de autoconhecimento, que nos leva a pensar na magnitude dos desafios, e, se às vezes, por eles serem fortes, dentro de nosso fraco espírito, se vale a pena encarar alguns deles em determinados momentos, ou administrar as questões em recuos estratégicos.

http://www.oconsolador.com.br/ano10/498/ca5.html

sábado, 10 de dezembro de 2016

Nossa relação com a mediunidade...

Não anda muito boa, como desde sempre… Continuamos idolatrando médiuns, principalmente os chamados médiuns de cura. Ainda buscamos respostas para o nosso problema pessoal X e a nossa dúvida Y na via mediúnica, o que um pouco de reflexão e a leitura edificante poderiam resolver. Mistificamos salas, mesas, objetos, reuniões, como se não houvesse Espíritos por toda a parte e todo lugar não fosse criação do Pai celestial.


Nós valorizamos ainda o livro psicografado, mesmo que nele esteja um sem-número de inconsistências; mas relegamos a segundo plano obras de encarnados fruto de longas reflexões. Confundimos as orientações mediúnicas com a vida administrativa da casa espírita; gostamos da foto daquele mentor, ilustrando as dependências da casa espírita e, ainda, fazemos filas para assistir ao maravilhoso fenômeno, como curiosos da era vitoriana.


Os Espíritos são os homens desencarnados, amigos e inimigos de ontem que se alternam conosco nas lutas da matéria. Isso Kardec já asseverava com propriedade… A mediunidade é via bendita de trabalho, na reunião mediúnica de atendimento a Espíritos sofredores, no consolo a mães aflitas, nas mensagens de esclarecimento e reflexão, como bem exemplificou na conduta mediúnica Francisco Cândido Xavier, que, apesar de suas faculdades, se mantinha a par de personalismos, na valorosa mediunidade com Jesus.


A mediunidade não é um superpoder de um herói de filme e nem uma tenda de milagres. É uma possibilidade que, se não for bem conduzida, pode enveredar para caminhos perigosos. Entretanto, o médium é ser humano, falível, com necessidades e anseios. Os Espíritos, também, homens de outras eras, estão conosco nesta caminhada evolutiva no orbe terrestre.


Por isso, insta analisarmos a nossa relação com a mediunidade, a nossa e a dos outros. O que queremos dela? O que pensamos disso? Precisamos estudar, não só os aspectos práticos e científicos da questão mediúnica, mas o seu aspecto filosófico, para não nos tornarmos vítimas de armadilhas e de ilusões.


Somente assim poderemos enxergar a mediunidade com a naturalidade que lhe é própria, ainda que requeira cuidados e preparo, como qualquer potencialidade do ser humano.


MARCUS VINICIUS DE AZEVEDO BRAGA


Link: http://www.oconsolador.com.br/ano5/209/marcus_braga.html

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

A Verdadeira Propriedade

PASCAL

Genebra, 1860

9 – O homem não possui como seu senão aquilo que pode levar deste mundo. O que ele encontra ao chegar e o que deixa ao partir, goza durante sua permanência na Terra; mas, desde que é forçado a deixá-los, é claro que só tem o usufruto, e não a posse real. O que é, então, que ele possui? Nada do que se destina ao uso do corpo, e tudo o que se refere ao uso da alma: a inteligência, os conhecimentos, as qualidades morais. Eis o que ele traz e leva consigo, o que ninguém tem o poder de tirar-lhe, e o que ainda mais lhe servirá no outro mundo do que neste. Desde depende estar mais rico ao partir do que ao chegar neste mundo, porque a sua posição futura depende do que ele houver adquirido no bem. Quando um homem parte para um país longínquo, arruma a sua bagagem com objetos de uso nesse país e não se carrega de coisas que lhe seriam inúteis. Fazei, pois, o mesmo, em relação à vida futura, aprovisionando-vos de tudo o que nela vos poderá servir.

Ao viajante que chega a uma estalagem, se ele pode pagar, é dado um bom alojamento; ao que pode menos, é dado um pior; e ao que nada tem, é deixado ao relento. Assim acontece com o homem, quando chega ao mundo dos Espíritos: sua posição depende de suas posses, com a diferença de que não pode pagar em ouro. Não se lhe perguntará: Quanto tínheis na Terra? Que posição ocupáveis? Éreis príncipe ou operário? Mas lhe será perguntado: O que trazeis? Não será computado o valor de seus bens, nem dos seus títulos, mas serão contadas as suas virtudes, e nesse cálculo o operário talvez seja considerado mais rico do que o príncipe. Em vão alegará o homem que, antes de partir, pagou em ouro a sua entrada no céu, pois terá como resposta: as posições daqui não são compradas, mas ganhas pela prática do bem; com o dinheiro podeis comprar terras, casas, palácios; mas aqui só valem a qualidades do coração. Sois rico dessas qualidades? Então, sejas bem-vindo, e teu é o primeiro lugar, onde todas as venturas vos esperam. Sois pobre? Ide para o último, onde sereis tratado na razão de vossas posses.

*

M., Espírito Protetor

Bruxelas, 1861



10 – Os bens da Terra pertencem a Deus, que os dispensa de acordo com a sua vontade. O homem é apenas o seu usufrutuário, o administrador mais ou menos íntegro e inteligente. Pertencem tão pouco ao homem, como propriedade individual, que Deus freqüentemente frustra todas as suas previsões, fazendo a fortuna escapar daqueles mesmos que julgam possuí-la com os melhores títulos.

Direis talvez que isso se compreende em relação à fortuna hereditária, mas não aquela que o homem adquiriu pelo seu trabalho. Não há dúvida que, se há uma fortuna legítima, é a que foi adquirida honestamente, porque uma propriedade só é legitimamente adquirida quando, para conquistá-la, não se prejudicou a ninguém. Pedir-se-á conta de um centavo mal adquirido, em prejuízo de alguém. Mas por que um homem conquistou por si mesmo a sua fortuna, terá alguma vantagem ao morrer? Não são freqüentemente inúteis os cuidados que ele toma para transmiti-la aos descendentes? Pois se Deus não quiser que estes a recebam, nada prevalecerá sobre a sua vontade. Poderá ele usar e abusar de sua fortuna, impunemente, durante a vida, sem ter de prestar contas? Não, pois ao lhe permitir adquiri-la, Deus pode ter querido recompensar, durante esta vida, os seus esforços, a sua coragem, a sua perseverança; mas se ele somente a empregou para a satisfação dos seus sentidos e do seu orgulho, se ela se tornou para ele uma causa de queda, melhor seria não a ter possuído. Nesse caso, ele perde de um lado o que ganhou de outro, anulando por si mesmo o mérito do seu trabalho, e quando deixar a Terra, Deus lhe dirá que já recebeu a sua recompensa.

Fonte: O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec, cap. XVI, Inst. dos Espíritos I

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Mauricio de Sousa lança ‘Meu pequeno evangelho’, livro da Turma da Mônica sobre espiritismo



Turma da Mônica agora vai difundir os ensinamentos do espiritismo, doutrina codificada no século XIX pelo francês Allan Kardec. Mauricio de Sousa está lançando "Meu pequeno evangelho" (Editora Boa Nova), livro em que Cebolinha, Cascão, Magali, Anjinho, Penadinho e companhia aprendem os ensinamentos de Jesus contido no "Evangelho segundo o espiritismo", principal obra do kardecismo.

Nas 64 páginas da história ilustrada por Mauricio e idealizada pelo designer peruano Luis Hu Rivas e pelo administrador baiano Alã Mitchell, ambos espíritas, a Turma da Mônica recebe a visita de André, um primo de Seu Antenor, pai do Cascão, que é seguidor da religião. Em meio à curiosidade das crianças, André apresenta conceitos do evangelho que todos podem usar no dia a dia, independentemente da religião que praticam. São mensagens de amor, caridade e humildade, contadas de forma divertida com os personagens.

Ensinamentos sobre felicidade, humildade, pureza, paz, misericórdia, amor, perdão etc. são passados um a um, sempre baseados em situações vividas pelos personagens e que são contadas a André.

O lançamento oficial, com a presença de Mauricio de Sousa, será 13 de dezembro, na livraria Cultura, em São Paulo.

Fonte:http://oglobo.globo.com/sociedade/religiao/mauricio-de-sousa-lanca-meu-pequeno-evangelho-livro-da-turma-da-monica-sobre-espiritismo-14687392?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=O%20Globo