quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Há crianças no mundo espiritual?



Por João Eduardo Ornelas / CEAG


Há crianças no mundo espiritual? Várias obras psicografadas trazem relatos de crianças no mundo espiritual. Nas reuniões mediúnicas médiuns relatam terem visto ou sentido presença de crianças. São comuns descrição de cenas com crianças brincando, rindo e cantando.

Vejamos o que diz o Livro dos Espíritos, na questão 381 Kardec pergunta aos espíritos: Pergunta: Por morte da criança, readquire o Espírito, imediatamente, o seu precedente vigor? Resposta: "Assim tem que ser, pois que se vê desembaraçado de seu invólucro corporal. Entretanto, não readquire a anterior lucidez, senão quando se tenha completamente separado daquele envoltório, isto é, quando mais nenhum laço exista entre ele e o corpo."

Vemos portanto que, o espírito que animou o corpo de uma criança, ao desencarnar readquire sua forma anterior se apoderando de sua bagagem moral e intelectual conquistada nas precedentes encarnações. Ele não permanece como criança no mundo espiritual.

Mas é de nosso conhecimento que todo espírito que desencarna, não somente a criança, leva um tempo mais ou menos longo, dependendo de seu adiantamento moral, para se desligar do corpo físico e da ultima personalidade vivida na carne. O que se denomina perturbação ou crise da morte existe para todos podendo ser para alguns de duração curta (algumas horas ou até minutos), ou demorado para outros (semanas, anos, décadas...).

Por dedução lógica entendemos que há crianças que desencarnam e recobram quase que imediatamente sua condição espiritual plena devido ao seu adiantamento moral, a maioria tendo em vista a resposta recebida por Kardec na questão supracitada. São aquelas crianças que aqui na terra por vezes demonstram grande maturidade, discernimento, equilíbrio e sabedoria apesar da tenra idade. Temos vários relatos de fatos semelhantes no dia a dia e também nos livros espíritas. Na obra da codificação “O Céu e o Inferno” o espírito do menino Marcel, no primeiro caso do cap 8 da segunda parte ilustra bem o que queremos dizer. Por outro lado há crianças cujos espíritos ainda estão pouco evoluídos que se prendem por um tempo mais longo a suas personalidades infantis, se acreditando ainda crianças, mantendo a aparência e a conduta infantis. Essas precisam ser amparadas, orientadas e conduzidas no plano espiritual. Daí talvez o relato de algumas obras mediúnicas que narram a existência de instituições ou organizações destinadas a cuidar desses espíritos, não crianças, mas ainda fixados na forma infantil.

O espírito André Luiz, no livro “Entre a Terra e o Céu” segundo nos conta visitou uma dessas instituições denominada “Lar da Bênção” onde havia várias crianças. No momento da visita algumas delas recebiam a visita das mães ainda encarnadas cujos espíritos se encontravam emancipados pelo sono físico. Segundo foi informado a André, as crianças permaneciam ali recebendo cuidados e instrução até recobrarem sua condição de adultos assumindo a consciência de seu patrimônio espiritual, ou reencarnarem sem ainda terem adquirido essa condição para na carne continuarem sua trajetória. A segunda opção, o reencarne rápido, seria o destino da maioria dos espíritos internados no Lar da Bênção.

É também de André Luiz a consoladora informação de que ele não encontrou crianças nas regiões de sofrimento no mundo espiritual que visitou, locais esses que ele denomina “regiões umbralinas”. Os espíritos que desencarnam nessas condições são logo encaminhados ao auxílio. A misericórdia divina não permitiria criançinhas assustadas chorando perdidas, vagando em regiões de sofrimento no mundo espiritual.

Via de regra, não há crianças no mundo espiritual, é o que informa a codificação espírita. Há espíritos que se apresentam como crianças porque estão fixados em sua última encarnação. Há outros que se libertaram do condicionamento infantil, mas se apresentam nas reuniões mediúnicas ou em sonhos com a aparência da última encarnação para se darem a reconhecer. Quantos às cenas relatadas pelos médiuns de crianças brincando em parques e cantando felizes podem ser a visão de uma instituição espiritual de auxilio a entidades ainda fixadas na forma infantil, ou podem ser cenas plasmadas pelo pelos espíritos a fim de criar um quadro ameno e agradável, uma ferramenta didática necessária ao trabalho em questão.

Por que tão freqüentemente a vida se interrompe na infância? Foi o que Kardec perguntou na questão 199. Resposta: "A curta duração da vida da criança pode representar, para o Espírito que a animava, o complemento de existência precedentemente interrompida antes do momento em que devera terminar, e sua morte, também não raro, constitui provação ou expiação para os pais."

A respeito do envolvimento dos pais no processo, o espírito André Luiz comenta: "Conhecemos grandes almas que renasceram na Terra por brevíssimo prazo, simplesmente com o objetivo de acordar corações queridos para a aquisição de valores morais, recobrando, logo após o serviço levado a efeito, a antiga apresentação que lhes era costumeira."

Aos pais que viram seus filhos partirem em tenra idade, para conforto e esclarecimento temos a dizer que:

a) Caso seu filho tenha demonstrado em seu curto período de vida no corpo físico grande equilíbrio, sensatez, inteligência e bondade, (fato freqüente) certamente trata-se de um espírito evoluído que, uma vez desencarnado recobrou sua bagagem anterior e está, de lá olhando pela família da qual está separado somente fisicamente.

b) Caso tenha sido uma criança normal, sem algum sinal aparente de evolução adiantada (o que não quer dizer que não a possua), seu filho não está sofrendo. Está no mundo espiritual recebendo amor, orientação e carinho a fim de recobrar sua memória espiritual e/ou reencarnar a fim de continuar sua trajetória.

c) Em ambos os casos pode-se obter contato, ter encontros e se matar a saudade por meios do pensamento, das preces e nos momentos de emancipação da alma pelo sono físico.

d) Também em ambos os casos é uma oportunidade de crescimento para os pais, por hora ainda incompreendido, mas que com certeza absoluta coaduna totalmente com a justiça divina na qual devemos confiar.

Fontes consultadas:


Allan Kardec – O Livro dos Espíritos


Allan Kardec - O Céu e o Inferno


José Marcelo Gonçalvez Coelho – artigo “Crianças no Além” publicado no Portal do Espírito


André Luiz/FCX – Entre a Terra e o Céu


Allan Kardec – Revista Espírita – agosto 1866 – PDF da FEB

http://www.meulivroespirita.blog.br/2017/10/ha-criancas-no-mundo-espiritual.html

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Como atuam os Médicos Espirituais?



Na Espiritualidade, os servidores da medicina penetram, com mais segurança, na história do enfermo para estudar, com o êxito possível, os mecanismos da doença que lhe são particulares.

Aí, os exames nos tecidos psicossomáticos com aparelhos de precisão, correspondendo às inspeções instrumentais e laboratoriais em voga na Terra, podem ser enriquecidos com a ficha cármica do paciente, a qual determina quanto à reversibilidade ou irreversibilidade da moléstia, antes de nova reencarnação, motivo por que numerosos doentes são tratáveis, mas somente curáveis mediante longas ou curtas internações no campo físico, a fim de que as causas profundas do mal sejam extirpadas da mente pelo contato direto com as lutas em que se configuraram.

Curioso, portanto, é que o médico espiritual se utilize ainda, de certa maneira, da medicação conhecida, no socorro aos desencarnados em sofrimento, porque, mesmo no mundo espiritual, todo remédio da farmacopéia humana, até certo ponto, é projeção de elementos quimio-elétricos sobre agregações celulares, estimulando-lhes as funções ou corrigindo-as, segundo as disposições do desequilíbrio em que a enfermidade se expresse.

Contudo, é imperioso reconhecer que na Esfera Superior o médico não se ergue apenas com o pedestal da cultura acadêmica, qual ocorre frequentemente entre os homens, mas sim também com as qualidades morais que lhe confiram valor e ponderação, humildade e devotamento, visto que a psicoterapia e o magnetismo, largamente usados no plano extrafísico, exigem dele grandeza de caráter e pureza de coração.

As cirurgias promovidas pelos médiuns de cura aqui na Terra (sempre auxiliados pelos médicos espirituais), ocorrem se acordo com o descrito acima também. As doenças com origens em lesões no períspirito são eliminadas, advindo, em seguida, a cura no corpo físico.

Esclarecem os amigos espirituais, igualmente, que os tratamentos e cirurgias realizados aqui na Terra em nosso corpo físico nos hospitais terrestres, podem auxiliar sobremaneira na cura definitiva das doenças enraizadas no períspirito. Trata-se de uma via de duas mãos. Acima de tudo, está o merecimento do paciente que se dá através do aprendizado e progresso.

Bibliografia:

Francisco Cândido Xavier – Evolução em Dois Mundos – pelo Espírito André Luiz

Fonte: http://www.meulivroespirita.blog.br/2017/10/como-atuam-os-medicos-espirituais.html

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Apocalipse na visão espírita



Antes de fazermos uma relação entre espiritismo e o fim do mundo vamos entender a origem do Apocalipse professado em diversas doutrinas religiosas. Praticamente tudo que sabemos até hoje sobre o Apocalipse vem do livro do apóstolo João. O livro do Apocalipse ("O livro da revelação") e também chamado de Apocalipse de João, é um livro da Bíblia — o livro sagrado do cristianismo — e o último da seleção do Cânon bíblico escrito por João na ilha Patmos.

A palavra apocalipse, do grego αποκάλυψις, apokálypsis, significa "revelação", formada por "apo", tirado de, e "kalumna", véu. Um "apocalipse", na mesma terminologia do judaísmo e do cristianismo é a revelação divina de coisas que até então permaneciam secretas a um profeta escolhido por Deus. Por extensão, passou-se a designar de "apocalipse" aos relatos escritos dessas revelações. Devido ao fato de, na maioria das bíblias em língua portuguesa, usar o título Apocalipse e não Revelação, até o significado da palavra ficou obscuro, sendo às vezes usado como sinônimo de "final dos tempos".

À luz da Doutrina Espírita, esse "final dos tempos", na verdade, se refere ao término do ciclo planetário chamado "provas e expiações". É conhecido através das obras básicas de Allan Kardec, em a Gênese e o livro dos espíritos, que os mundos possuem uma gradação evolutiva, iniciando sua caminhada nos primeiros estágios chamados de mundos primitivos e concluindo ao atingir o estágio evolutivo de mundos celestes. A Terra está apenas no segundo estágio dessa cadeia evolutiva, ou seja, ainda distante de terminar sua jornada.

Allan Kardec esclarece que "para que na Terra sejam felizes os homens, preciso é que somente a povoem Espíritos bons, encarnados e desencarnados, que somente ao bem se dediquem. Havendo chegado o tempo, grande emigração se verifica dos que a habitam: a dos que praticam o mal pelo mal, ainda não tocados pelo sentimento do bem, os quais, já não sendo dignos do planeta transformado, serão excluídos, porque, senão, lhe ocasionariam de novo perturbação e confusão e constituiriam obstáculo ao progresso. Substitui-los-ão espíritos melhores, que farão reinem em seu seio a justiça, a paz e a fraternidade." A época atual é de transição; confundem-se os elementos das duas gerações. Colocados no ponto intermédio, assistimos à partida de uma e à chegada da outra, já se assinalando cada uma, no mundo, pelos caracteres que lhes são peculiares."

Os espíritos através da psicografia do médium Divaldo Pereira Franco detalham o momento planetário que vivemos: " Vive-se, na Terra, o momento da grande transição de mundo de provas e de expiações, para mundo de regeneração. As alterações que se observam são de natureza moral, convidando o ser humano à mudança de comportamento para melhor, alterando os hábitos viciosos, a fim de que se instalem os paradigmas da justiça, do dever, da ordem e do amor. Anunciada essa transformação que se encontra ínsita no processo da evolução, desde o Sermão profético anotado pelo evangelista Marcos, no capítulo XIII do seu livro, quando o Divino Mestre apresentou os sinais dos futuros tempos após as ocorrências dolorosas que assinalariam os diferentes períodos da evolução".

Então fica claro que o planeta não será destruído na sua forma física, mas que sofrerá uma mudança em sua psicosfera. Aqueles espíritos que estiverem presos aos sentimentos mais densos da alma precisarão ir para outra "escola", e, assim, despertarem suas consciências. O mundo e as relações interpessoais deverão ser de amor e baseados na cooperação entre os povos, e os anseios coletivos, sobrepor aos individuais. Essa revolução planetária faz parte do planejamento feito pelo Mestre Jesus acerca de 4,5 bilhões de anos.

Entretanto, o mais importante é saber que ainda há tempo para nossa transformação moral. Jesus não espera santidade de nós e sim, encontrar em nossos corações a semente da mudança, aquela vontade sincera de sermos seres humanos melhores.

Fonte: http://www.meulivroespirita.blog.br/2017/10/apocalipse-na-visao-espirita.html

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Demônios na visão espírita



Segundo a doutrina das igrejas, os demônios foram criados bons e se tornaram maus pela desobediência: São os anjos decaídos, foram colocados por Deus no alto da escala, e desceram. Mas para a doutrina espírita são espíritos imperfeitos que estão ainda na base da escala inferior mas que podem melhorar e evoluir, chegando assim ao nível de espírito puro.

Anjos e demônios não são seres criados à parte, quando unidos a corpos materiais, eles constituem a humanidade que povoa a terra e a outras esferas habitadas, já quando separados do corpo, constituem o mundo espiritual ou dos espíritos que povoam os espaços.

Aqueles que pela sua indiferença, negligência, obstinação ou má vontade permanecem por tempo mais longo nas classes inferiores, tem mais dificuldade em deixar o hábito do mal,tornando mais difícil de sair da situação em que se encontra. Mas chega um tempo em que se cansam dessa existência penosa e dos sofrimentos que na verdade não é nada mais nada menos que uma consequência, se compararmos a sua situação com a dos bons espíritos. Compreendem que seu interesse está no bem e procuram se melhorar, mas o fazem por sua própria vontade e sem serem constrangidos por isso, pois eles estão submetidos à lei do progresso por sua aptidão em progredir igual a todos os espíritos.

Para isso Deus lhes fornece, sem cessar, os meios, mas são livres para aproveitarem ou não. Se o progresso fosse obrigatório, eles não teriam nenhum mérito, e Deus quer que tenham o de suas próprias obras. Não coloca nenhum na primeira classe por privilégio, mas a primeira classe está aberta a todos, e a ela não chegam senão por seus esforços. Os mais elevados anjos conquistaram o seu grau como os outros passando pela rota comum.

Podemos afirmar então que os demônios são espíritos que estão em um grau de evolução inferior, e sentem prazer em praticar o mal, vivendo uma falsa felicidade. Se afastando cada vez mais dos mentores espirituais, por estarem em constante vibração com energias ruins e atraindo para si próprios apenas seres que vivem da prática do mal. Mas chegará o dia em que a lei divina irá fazer com que eles se melhorem e saiam da área de conforto e então aprenderão o verdadeiro sentido da vida, que é amar ao próximo como a ti mesmo para se tornar um dia um espírito de luz.

("Céu e Inferno", Allan Kardec)

Fonte: http://www.meulivroespirita.blog.br/2017/10/demonios-na-visao-espirita.html

domingo, 1 de outubro de 2017

12 de outubro, nos cinemas: A Menina Índigo



"A Menina Índigo", novo filme de Wagner de Assis (diretor de “Nosso Lar”). O roteiro conta a história de uma menina "especial" e tem Letícia Braga, Murilo Rosa e Fernanda Machado. A estreia nos cinemas será em 12 de outubro.

“Este é um filme que conta como uma menina de sete anos provoca um choque nas relações familiares ao obrigar todos ao seu redor a repensarem suas vidas”, adianta Assis.

“É nas relações entre os personagens que aparece toda a força da menina. Uma nova geração que tem sido chamada de Índigo, representada por Sofia, apresenta comportamentos novos, questionamentos sobre normalidade, posturas surpreendentes e, também, um olhar espiritualizado para todas as coisas”, completa o diretor.

"Nosso Lar" fez muito sucesso ao adaptar para o cinema o livro homônimo de Chico Xavier. O longa foi um dos mais assistidos de 2010, levando mais de 4 milhões de espectadores aos cinemas.

Assista o trailer: 



Fonte: https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/a-menina-indigo-conta-historia-de-menina-especial-com-leticia-braga-e-murilo-rosa-veja-trailer.ghtml

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

O martelo ainda ecoa, a chama ainda arde: a mediunidade e a caça às bruxas

Por Marcus Vinicius de Azevedo Braga





O martelo das feiticeiras (Malleus Maleficarum Maleficat & earum haeresim, ut framea potentissima conterens), obra alemã de 1487, com autoria atribuída a Heinrich Kraemer e a James Sprenger, é um verdadeiro manual de combate a heresias, um guia para o processo de inquisição que manchou o cristianismo na Europa e nas Américas na segunda metade do segundo milênio, na tristeza das fogueiras onde se queimavam as intolerâncias e das salas de tortura que envergonharam a humanidade.

Parece distante no tempo esse cenário, mas eventos recentes trazem sua marca, como o ocorrido em fevereiro de 2017, na Nicarágua, no qual a Sra. Vilma Trujillo, de 25 anos, foi amarrada e queimada viva numa fogueira em uma tentativa de exorcismo promovida por um grupo cristão, e ainda, o linchamento em maio de 2014 da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, em Guarujá-SP, a partir de um boato de redes sociais de que ela sequestrava crianças para utilizá-las em rituais de magia negra.

Ser cristão no mundo atual é ser perseguido em alguns locais, mas também é perseguir com atos de violência em tantos outros, com um espírito que afronta as ideias centrais de Jesus. O martelo ainda ecoa…

Essa intolerância etnocêntrica, pautada em um medo que se alimenta da ignorância, vitima todas as crenças não hegemônicas, em ocorrências que vão desde injúrias até a depredação de templos, expondo nosso lado mais hostil em relação aos outros e suas características[1].

Mas, além dessa discussão, da intolerância oriunda de outras religiões, o presente artigo traz à baila uma nova abordagem, da questão da intolerância endógena, do espiritismo com tudo que for mediúnico e que difira dele. Questões oriundas de relações mal resolvidas com a mediunidade.

Sim, o martelo ecoa também em nossas mentes, mas com um timbre diferente. O nosso país, surgido para o mundo ocidental poucos anos após a primeira edição de o “Martelo”, amargou na sua gênese não somente a sombra da inquisição, como teve as crenças indígenas e africanas proscritas, gerando a necessidade de um sincretismo que possibilitasse o exercício livre da prática religiosa desses grupos em seus aprisionamentos.

Essa inquisição que rotulou de bruxaria as religiões com traços mediúnicos oriundas dos escravos e dos nossos habitantes originais, se fez presente mesmo após a chamada abolição da escravatura e a Proclamação da República[2], dado que o Código Penal de 1890, que até 1942 ainda estava vigente, trazia no seu Art. 157 a previsão de crime “por se praticar o espiritismo, a magia e seus sortilégios, usar de talismans (SIC) e cartomancias, para despertar sentimentos de ódio ou amor, inculcar cura de molestais (SIC) curáveis ou incuráveis, enfim, para fascinar e subjugar a credulidade pública.”

Esse marcante temor da questão mediúnica, que trazemos insculpido em nossas personalidades, por esse longo processo histórico sucintamente aqui descrito, associando o não hegemônico ao negativo, contaminou a prática mediúnica no âmbito do próprio movimento espírita, revestindo essa de uma formalidade relevante, convertida em uma prática encapsulada, assustada e burocratizada, e por vezes, até negada como exercício de nossa espiritualidade.

Assim, ultrapassando os limites do respeito e da prudência, essa formalidade torna a mediunidade na casa espírita um assunto para poucos, reservado, com um ar de sigilo, de mistério. Por vezes, visto como desnecessária, em uma postura curiosa em relação ao pedagogo francês que estudou esse fenômeno em salões de diversão.

A defesa do presente artigo é de que essa postura não é apenas uma questão de respeito pelos espíritos desencarnados, tratados por vezes como divindades[3], ou mesmo de apuro quanto aos escolhos da mediunidade, mas sim uma herança desse passado de proscrição da questão mediúnica, como motivo de vergonha e de medo.

Da mesma forma, muitas vezes no espiritismo torcemos o nariz para outras manifestações ditas espiritualistas, que têm práticas similares ao que fazemos no espiritismo, com a agregação de outras culturas, vistas muitas vezes pelos espíritas como inferiores, mistificadas, animismos, ainda que os espíritos insistam nas suas falas que não importa o local, pois onde houver trabalho no bem, lá eles estarão.

É mais um triste exemplo da lógica do Educador Paulo Freire, quando diz que se a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor, o que fazemos repetindo o som do “Martelo” em nossas ações, quando tentamos moldar as relações mediúnicas aos nossos formatos, cheios desse medo antepassado, e de preconceitos de toda ordem.

Todo esse cenário se resume, por fim, em desprezo pela importantíssima dimensão espiritual na prática espírita, um fato que se reflete na carência literária, de estudos, e de palestras que adentrem mais amiúde nessa questão, gerando fatos curiosos, da pessoa que frequenta a casa espírita e quando tem questões de foro mediúnico, termina por buscar, meio que clandestinamente, essas casas espiritualistas.

Esse medo, esse aprisionamento, é diverso do espírito da doutrina de conhecer e pesquisar, de conviver e respeitar, buscando avançar sobre a ideia da “letra sagrada” para o campo do crescimento do conhecimento, nas trincheiras das discussões sobre energias, Chakras, materializações, apometria, transcomunicação instrumental e regressão de memória, o que só enriquece a chamada mediunidade com Jesus, que é essa na prática do bem, nas chamadas reuniões de desobssessão. Não existe esse muro.

Sob a batuta de taxar coisas de antidoutrinárias, fechamos portas ao conhecimento, aos avanços, à discussão, encastelados em nossas posições, como se a prática espírita fosse uma coisa hermética e fossilizada no tempo. Kardec se posicionaria assim diante dessas questões nos dias de hoje?

Não se está advogando aqui a irresponsabilidade e a frivolidade com o tema, fiel ao espírito de Kardec no O livro dos Médiuns, e sim de enxergar que essa trajetória de perseguição de nosso traço menos hegemônico nos marcou em uma visão encapsulada da prática mediúnica, varrida por vezes para baixo do tapete de nosso cotidiano espírita e que isso se reflete em medos, perseguições e negações.

Perceber isso – que o martelo ainda ecoa – e que a chama ainda arde, é um caminho para que rompamos esses modelos de caçar demônios travestidos de obsessores, e de renegar práticas e conhecimentos que fujam do estreito aceitável, elitizando e empobrecendo a prática mediúnica, ainda que ela insista em surgir na natureza de diversas formas, que contrariam dia a dia os nossos moldes.


Marcus Vinicius de Azevedo Braga

[1] Para saber um pouco mais, recomendo ao artigo “A intolerância é uma palavra feia”, disponível em http://www.agendaespiritabrasil.com.br/2016/01/31/tolerancia-e-uma-palavra-feia/

[2] Para se aprofundar mais no assunto, recomendo o artigo “ O baixo espiritismo e a história dos cultos mediúnicos”, de Emerson Giumbelli e disponível em http://www.scielo.br/pdf/ha/v9n19/v9n19a10.pdf

[3] Esquecem o contido na Introdução de “O livro dos espíritos”: “O Espiritismo no-la mostra preenchida pelos seres de todas as ordens do mundo invisível e estes seres não são mais do que os Espíritos dos homens, nos diferentes graus que levam à perfeição”.

Fonte: https://blogabpe.org/2017/03/25/o-martelo-ainda-ecoa-a-chama-ainda-arde-a-mediunidade-e-a-caca-as-bruxas/

domingo, 17 de setembro de 2017

Transgêneros na Visão Espírita

A novela A Força do Querer, de Glória Perez, está trazendo o tema da luta da população T (travestis, mulheres transexuais e homens trans) na Rede Globo. A personagem de Carol Duarte (Ivana), vive um homem transsexual e enfrenta o drama de não ter o apoio da mãe, que é interpretada por Maria Fernanda Cândido (Joyce). Transgênero é o indivíduo que se identifica com um gênero diferente daquele que corresponde ao sexo atribuído no nascimento.

Mas o que a doutrina espírita diz sobre o assunto?

As almas ou espíritos não têm “sexo”. Essas distinções só existem no organismo para a reprodução dos corpos físicos. Mas os espíritos não se reproduzem no além, razão pela qual órgãos sexuais são inúteis no plano superior.

Para os mensageiros da pátria espiritual, “as características sexuais dos espíritos fogem do entendimento humano, até porque são os mesmos que animam os corpos de homens e mulheres. Para o espírito, reencarnar no corpo masculino ou feminino ou sexualmente “indefinido” pouco lhe importa.

Segundo o “Livro dos Espíritos” de Allan Kardec, o que guia a alma na escolha são as provas por que irá passar. Os espíritos encarnam como homens ou como mulheres, porque não têm sexo. “Visto que lhes cumpre progredir em tudo, cada sexo [experiência masculina ou feminina], como posição social lhes proporciona provações e deveres especiais com isso, ensejo de ganharem experiência. Aquele que só como homem ou mulher encarnasse só saberia o que sabem os homens e ou as mulheres”. 

Podemos ver exemplos de países que já entenderam a necessidade de realizar a inclusão de todos os gêneros na sociedade. Na Alemanha, por exemplo, existe uma lei que as pessoas podem assumir sua identidade sexual na Lei. Ela estabelece que as pessoas profundamente identificadas com um determinado gênero têm o direito de escolher seu sexo legalmente.

Com isso, o espírito reencarnado tem a possibilidade de escolher posteriormente se prefere ser definido como homem ou mulher segundo sua composição psíquica. Ou até mesmo seguir com o sexo [morfologicamente] indefinido pelo resto da vida.

Para os benfeitores espirituais “as características sexuais dos espíritos fogem do entendimento humano, até porque são os mesmos os espíritos que animam os corpos de homens e as mulheres.

O espírito Emmanuel explica que através dos milênios, o espírito passa por fileira imensa de reencarnações, ora em posição de feminilidade, ora em condições de masculinidade, o que sedimenta o fenômeno da bissexualidade, mais ou menos pronunciado, em quase todas as criaturas. O homem e a mulher serão, desse modo, de maneira respectiva, acentuadamente masculino ou acentuadamente feminina, sem especificação psicológica absoluta.

Em face disso, a individualidade em trânsito, da experiência feminina para a masculina ou vice versa, ao envergar o casulo físico, demonstrará fatalmente os traços da feminilidade em que terá estagiado por muitos séculos, em que pese ao corpo de formação masculina que o segregue, verificando-se análogo processo com referência à mulher nas mesmas circunstâncias. Segundo Divaldo Pereira Franco, não se trata de punição, castigo, já que Deus não castiga, não pune; Deus é, em verdade, inteligência suprema, segundo “O Livro dos Espíritos”, questão 1°.)

A homossexualidade é referenciada na atualidade como o terceiro sexo – complementa Divaldo – existente, inclusive, em animais, o que ratifica o fato de não ser castigo, já que esses seres irracionais nada fizeram para ter “punição da divindade”. O médium citou o seguinte exemplo para fins de compreensão: “se, por exemplo, eu, espírito, reencarno na masculinidade durante dez ou cinco vezes consecutivas, eu tenho uma psicologia máscula e uma anatomia masculina; mas por uma necessidade evolutiva na minha próxima reencarnação eu encarnar na feminilidade, logo eu tenho uma anatomia feminina, mas uma psicologia masculina, sendo quase inevitável esse indivíduo ter uma tendência homossexual.”

Entretanto, Divaldo ressalta que o uso da máquina sexual para o abuso, a promiscuidade, a depravação – tanto em homossexuais quanto em heterossexuais – é o que gerará processos cármicos que terão que se resolver em vida(s) futura(s).

Divaldo Franco concluiu a resposta sugerindo que: “Não podemos agredir nenhum deles [homossexuais] com os nossos conflitos e com as nossas opções, como não devemos, por outro lado, ficar em conflito, dominados por um preconceito social. Devemos procurar meios éticos para que nossa vida seja feliz na Terra, tanto na condição ‘hétero’ quanto na ‘homo’”.

Fonte: https://agazetaespirita.blogspot.com.br/2017/09/transgeneros-na-visao-espirita.html