quinta-feira, 3 de junho de 2010

ENTÃO O SUDÁRIO É FALSO ?

Sylvio Ourique Fragoso





Parte I



O Cardeal Anastácio Ballestrero, arcebispo de Turim, Itália, à vista dos resultados dos testes de datação pelo carbono-14, "anunciou que o Sudário venerado desde o século XIV, foi tecido entre os anos de 1260 e 1390 depois de Cristo".

Não é nosso propósito fatigar o leitor repetindo o que já dissemos anteriormente (ver R.I.E. de abril e maio de 1981). Mas as últimas notícias veiculadas pela imprensa alardeando que o Sudário é falso, impõem-nos uma retomada do assunto. Vamos então dar uma repassada sobre o tema antes de lhe tocarmos o cerne.

O Sudário é um tecido inteiriço, de linho, com 4,30m de comprimento por 1,10m de largura, onde está estampada em sépia monocromática a imagem de um homem com todas as aparências de haver morrido crucificado, após sofrer inúmeras sevícias. Esse pano vem sendo guardado desde o século XVI em Turim, Itália, pertencente que era à Casa de Savóia. Com a morte do Rei Humberto, em 1983, a relíquia passou a pertencer ao Vaticano. Embora a Igreja não o afirmasse, admitia-se que o Sudário fosse a mortalha que envolveu o corpo de Jesus em seu sepultamento, conforme narram os textos evangélicos (Mt 27,59; Mc 15,46; Lc 23,53; Jo 20,5-7). Mesmo as referências bíblicas terminando aí, ao longo da história sempre se ouviu falar de um pano que conteria impressa a imagem de Jesus. Quem não conhece o episódio da Verônica, onde se diz que uma mulher, estando o Cristo a caminho do Calvário, irrompeu da multidão para enxugar-lhe o rosto suarento e ensangüentado, notando após que na toalha que usara a face de Jesus havia sido retratada? No entanto, em vão se buscará nos Evangelhos essa narrativa. Ela faz parte do que a Igreja chama de "Tradição". Mas o fato é que antes do século VII não havia tradição nenhuma sobre isso e nas procissões que então se faziam na Sexta-Feira Santa a figura da Verônica (nome que significa "verdadeira imagem") não aparecia. O que teria levado as pessoas a imaginar esse episódio que a própria Igreja aceitou e divulgou? É muito pouco provável que os soldados romanos deixassem alguém chegar tão perto de um condenado a caminho do suplício. Mas como toda lenda parte de um fato concreto, é possível que a piedosa legenda da Verônica tenha tido origem em algum tipo de tecido que se dizia conter a imagem de Jesus. O fato é que as referências sobre esse misterioso pano vêm de muito mais longe. Tornemos ao texto bíblico. Diz Mateus que José de Arimatéia "tomando o corpo de Jesus amortalhou-o num asseado lençol". Marcos acrescenta que José, tendo comprado um lençol e tirando o corpo da cruz, amortalhou-o no lençol antes de depositá-lo no sepulcro. Lucas também diz que o corpo foi amortalhado num lençol. Só João usa o plural: Tomaram pois o corpo de Jesus e o ligaram envolto em lençóis. Mais adiante João dá outros detalhes: no domingo, quando Maria de Magdala e outras mulheres foram até o sepulcro para terminar a unção determinada pelo rito judaico e o encontraram vazio, correram até os discípulos para contar a novidade. Pedro e João, alarmados, voaram até lá. João chegou primeiro, mas não teve coragem de entrar no túmulo. Pedro, valente que era, desceu nele e viu postos no chão os lençóis e o lenço que estivera sobre a cabeça de Jesus, o qual não estava com os lençóis, mas estava dobrado num lugar à parte. Parece que os tradutores não foram muito fiéis à narrativa de João. Onde ele fala em othonia (faixas) traduziram por "lençóis" e onde vem escrito sindon verteram como "lenço". Mas sindon não pode ser apenas um lenço, tanto que Marcos (14,51-52) emprega esse mesmo termo para descrever a roupa que um discípulo (talvez ele próprio) deixou no Monte das Oliveiras quando a turba que prendeu Jesus quis gadunhá-lo também. De qualquer forma, o fato do sindon estar, no túmulo vazio, dobrado num lugar longe das othonia, já sugere algo de especial.

Se as referências evangélicas sobre o Sudário terminam no sepulcro deserto, as citações históricas, ainda que fragmentadas, prosseguem. Assim é que no ano de 325 Eusébio de Cesaréia escreveu uma História da Igreja, onde vem descrito o ocorrido com Abgar V, rei de Edessa. Essa história foi confirmada e ampliada por muitos manuscritos descobertos nas ruínas de um mosteiro em Nitrian, Egito, em 1840. Em síntese é o seguinte: Em Edessa (atual Urfa, na Turquia) reinou, de 13 a 50 de nossa era o rei Abgar V, que sofria "de uma doença incurável". Após a morte de Jesus os discípulos para lá enviaram Tadeu, um dos setenta, com a missão de levar ao rei um tecido (mandylion) onde estaria estampada a verdadeira imagem do Cristo feita "não por mãos humanas". Em presença do mandylion Abgar V teria sido curado, convertendo-se ao Cristianismo. Ocorre que após a sua morte subiu ao trono seu filho Ma’nu VI, que determinou a volta do paganismo. Quando Ma’nu assumiu o poder o evangelizador Tadeu já havia morrido e ninguém nunca mais soube o que foi feito do mandylion. Mas, segundo consta, o tecido foi descoberto, entre 525 e 544, num espaço oco por trás das pedras que formavam o arco de uma das portas da cidade. O fato é que no ano 544 o historiador sírio Evagrius informou que a relíquia fora usada para proteger a cidade do ataque do rei persa Chosroes. A razão da descoberta do mandylion foi, provavelmente, a enchente que quase destruiu Edessa em 525. Foi então que o imperador Justiniano mandou construtores até aquela cidade os quais, encontrando as muralhas muito prejudicadas pelo tempo e pela enchente, trataram de reconstruí-las. Nessa oportunidade o pano com a imagem de Jesus teria sido encontrado juntamente com uma peça de cerâmica e uma tocha, que ainda estaria acesa(!). Parece certo que a partir daí começaram a surgir as primeiras cópias do mandylion, pois notícias dele provinham de várias cidades, dando ciência de que a verdadeira relíquia encontrava-se em Melitene, em Hierápolis, em Camuliana e até em Mênfis, no Egito. Mas parece que o tecido autêntico permaneceu em Edessa, pois que, no século VIII, Atanásio bar Gumayer recebeu-o como penhora de uma dívida, até o dia em que Abraão, bispo de Samósata, conseguiu obtê-lo e levá-lo, para desgosto do povo de Edessa, até Constantinopla, onde consta ter permanecido de 944 a 1204.

Naquele ano de 1204 a Quarta Cruzada tomou Constantinopla, saqueando-a de todos os seus tesouros e relíquias. Robert de Clari, o historiador dessa Cruzada, ao descrever as relíquias que então ali se encontraram, diz que na igreja de Minha Senhora Santa Maria de Blachernae estava guardado o sydoine em que Nosso Senhor foi envolvido e no qual a imagem de Nosso Senhor podia ser vista com toda a clareza.

Mas os cruzados arrasaram Constantinopla e ninguém ficou sabendo o que foi feito do Sudário.

Ora, ocorre que 80 anos antes disso dois cavaleiros franceses, Rugh de Payens e Geoffrey de Saint-Omer, haviam fundado, com outros companheiros, a Ordem dos Cavaleiros Templários, que acabou por conseguir grande prestígio e poder a ponto de ser depositária de muitos tesouros reais e de relíquias religiosas. E foram os Templários que financiaram a Quarta Cruzada, responsável pelo desaparecimento do mandylion de Constantinopla.

A Ordem dos Cavaleiros Templários constituía uma sociedade secreta e assim seus membros acabaram sendo suspeitos de heresia, pois que, lá por 1300, andaram circulando uns boatos de que os Templários adoravam uma cabeça que representava um homem barbado que eles veneravam como o seu Salvador... E na madrugada de 13 de outubro de 1307 o templo daquela Ordem foi invadido pelos soldados do rei da França após muitas horas de luta com os bravos Cavaleiros. Lá dentro nada foi achado, mas alguns Templários, torturados pela Inquisição, confessaram que a figura de uma cabeça, iluminada por tochas, devia ser por eles olhada rapidamente, nos rituais de iniciação, após o que deveriam prostrar-se adorando-a, e que apenas o Grão-Mestre e os membros mais antigos da confraria sabiam ao certo do que se tratava. Essa cabeça foi descrita por Estevan de Troyes, um dos torturados, como uma cabeça de homem muito pálida e desbotada, com uma barba grisalha.

Sem querer afirmar nada, podemos identificar essa descrição com o que se vê, ainda hoje, no Sudário. De qualquer forma, embora a tal cabeça não fosse encontrada quando os soldados conseguiram invadir o templo da Ordem, os grão-mestres Jacques de Molay e Geoffrey de Charnay foram queimados próximo à Notre-Dame em 19 de março de 1314. Morreram como heróis, recusando a condição de heréticos e reafirmando sua fé no Cristianismo.

Em 1353 um descendente de Geoffrey de Charnay, quase se homônimo, Geoffrey de Charny, tornou-se conhecido como proprietário do lençol fúnebre de Jesus, embora nunca explicasse como o obtivera. E foi Charny que, naquele ano, mandou construir uma igreja em Lirey, onde o Sudário ficou depositado, a bem dizer escondido, pois que até então jamais fora exposto publicamente. Mas Charny morreu em combate e então sua viúva, Jeanne de Vergy, passou a fazer as primeiras exibições públicas da relíquia, o que provocou uma divergência de opinião entre o clero sobre a autenticidade do Sudário principalmente porque a viúva também não contava como seu marido o conseguira.

A partir daí a história do Sudário é conhecida. Ele continuou com a família Charny até 1453, quando foi cedido ao Duque Luís de Savóia. E a Casa de Savóia foi sua proprietária até 1983, quando morreu o Rei Umberto II da Itália, que se achava exilado. Depois disso o Sudário ficou pertencendo ao Vaticano embora prossiga sendo guardado em Turim, onde se acha desde 1578, de lá somente saindo, às escondidas, em setembro de 1939 para ser guardado no Mosteiro de Montevergine, onde permaneceu oculto até que acabasse a Segunda Guerra.

Sobre o Sudário, sabe-o o leitor, muito já se falou e escreveu, principalmente após a famosa fotografia de Secondo Pia, em 1898, que mostrou que o Sudário é um autêntico negativo fotográfico, coisa que a ciência até hoje não explicou. A partir porém dos recentes testes de datação pelo carbono-14 toda a imprensa afirmou estar comprovada a falsidade do Sudário, que não passaria de um embuste praticado no século XIV. Mas acompanhando o noticiário dos jornais pode-se perceber uma certa leviandade com que o assunto foi tratado. Assim é que O Estado de São Paulo, de 27/08/88 estampou em manchete: Para ingleses, o Sudário é falso. É que o jornal londrino Evening Standard noticiara que cientistas da Universidade de Oxford revelaram que os testes feitos por eles no Santo Sudário (...) deram resultados contrários à crença geral. Mas o correspondente de O Estado consultou os catedráticos daquela instituição e teve como resposta que eles não sabiam de onde o Standard tirara aquela idéia. Na mesma data A Folha de São Paulo publicava: Cientistas dizem que Sudário é falso. E reproduziu a notícia sensacionalista do jornal inglês. Em 17/09, menos de um mês depois, novamente O Estado de São Paulo volta ao assunto declarando: Sudário: o enigma persiste. Em 19/09 o Jornal da Tarde afirmou: A confirmação dos cientistas: O Santo Sudário é falso. Esse jornal estava reproduzindo, segundo declara, o que saíra publicado no Sunday Times, de Londres. Em 28/09 é ainda O Estado quem estampa que a Igreja também admite dúvidas sobre o Sudário. E em 14/10 esse mesmo noticioso confirmava: Sudário é uma falsificação, admite a Igreja. E explica que o cardeal Anastácio Ballestrero, arcebispo de Turim, à vista dos resultados dos testes de datação pelo carbono-14, anunciou que o Sudário, venerado desde o século XIV, foi tecido entre os anos de 1260 e 1390 depois de Cristo (sic).

Todos os jornais, todos os noticiários da televisão estiveram empenhados em divulgar essa novidade, como era mesmo de se esperar que o fizessem. Mas, perguntamos nós, e todos os demais testes, todos os exames exaustivamente praticados naquele tecido em épocas anteriores, por tantos cientistas de renome mundial, particularmente os da Comissão de 1978, que reuniu no mínimo 400 homens de ciência, os quais ficaram todos convencidos da autenticidade da relíquia? Seriam eles uns papalvos que se deixaram enganar por um embromador da Idade Média? O sistema de datação pelo carbono-14 poderia, sozinho, invalidar as centenas de outros testes já realizados, poderia anular toda a evidência científica acumulada? Se o leitor permitir, é o que veremos.

novembro/1988

ENTÃO O SUDÁRIO É FALSO ?

Parte II

Se o leitor está lembrado, ficamos de ponderar se os recentes exames pelo carbono-14 efetuados no Sudário de Turim e que lhe teriam atestado a falsidade, seriam suficientemente confiáveis de modo a invalidar as centenas de outros testes realizados naquele tecido. Embora reconhecendo nossa indigência cultural, tentemos a empreitada socorrendo-nos, para tal, de quem mais sabe.

A técnica de datação pelo método do carbono-14 foi desenvolvida em 1946 pelo Dr. Willard Libby. Ela consiste no seguinte: é sabido que todos os seres vivos possuem um componente básico que é o carbono (C12), do qual existe um isótopo radioativo, o carbono-14 (C14). O isótopo é um átomo que se caracteriza por um número de massa e um número atômico determinados. No caso do carbono-14 é conhecido o tempo em que a quantidade original fica reduzida à metade por desintegração. Esse tempo é chamado meia vida e no caso do C14 ela é de 5.760 anos. Isto quer dizer que um grama de carbono-14, ao fim daquele período estará reduzido a meio grama. O carbono-14 forma-se na alta atmosfera e desce à Terra de forma que acaba sendo absorvido pelas plantas, pelos animais e pelo homem. Tão logo o organismo venha a morrer, tão logo uma planta seja colhida, essa absorção deixa de ser feita e o carbono-14 inicia aquela desintegração que mencionamos acima e isto permite que a idade do ser examinado seja calculada, tomando-se por base a quantidade de carbono-14 que ele ainda guarde. Foi o que sempre se pensou em fazer com o Sudário: examinando-se as fibras do linho por este método, seria possível conhecer-se a data em que foi colhido, ocasião em que, logicamente, deixaria de absorver o C14.

Mas se a coisa é tão simples - perguntará alguém - por que não se fez esse teste no Sudário há mais tempo?

Por uma só razão: é que a coisa não é tão simples. A datação pelo carbono-14 é um tipo de exame que inutiliza a peça analisada. No caso do Sudário, por exemplo, o teste só seria confiável se se pudesse contar com um pedaço do linho de, pelo menos, 0,30 x 0,30 m, retalho esse que seria, simplesmente, incinerado. Além disso, mais dois ou três retalhos iguais deveriam ser empregados para validação do teste e, conseqüentemente, inutilizados. Claro, pois, que nessas condições nem a Casa de Savóia, nem o Vaticano, puderam nunca autorizar o exame. Só que, recentemente, uma nova técnica para datação pelo carbono-14 começou a ser desenvolvida. É o chamado método por aceleração, que aceita um pedaço bastante menor da peça a ser examinada. E foi este o sistema que se usou para o Sudário de Turim. Foi também aí que a coisa se complicou ainda mais. Se no teste tradicional já se admite uma margem de erro de 200 anos, no processo por aceleração essa margem fica muitíssimo aumentada. Ora, o Sudário mede 4,30 m por 1,10 m e dele só se retirou, para exame, um pedacinho de um centímetro por sete centímetros, o qual foi dividido em três, recebendo cada universidade um retalhozinho menor que um selo de correio. No entanto o próprio Dr. Libby, criador do teste, alerta que os resultados só serão válidos se se puder contar, na peça a ser examinada, com pelo menos dez gramas de carbono puro! Razão teve o Pe. Rômulo Cândido, especialista em História da Igreja, para afirmar que o Vaticano foi precipitado ao aceitar a "prova" da falsificação. Também o Dr. Walter Demétrio Gonzales, do Departamento de Geofísica e Aeronomia do Instituto de Pesquisas Espaciais, único cientista brasileiro integrante da Associação Internacional de Estudiosos do Sudário de Turim, protestou contra aquele resultado. Diz ele que, certamente, todos os seus colegas que integraram a famosa delegação de 1978 farão protestos iguais. Também o Dr. Eurípedes Cardoso de Menezes, autor de O Santo Sudário à luz da Ciência, chegou a escrever ao Cardeal Ballestrero reprovando a aceitação de um relatório "científico" que nem ao menos foi assinado pelos até agora desconhecidos investigadores.

O Dr. Walter Demétrio vai ainda mais fundo: afirma ele, com toda a razão, que para a datação do carbono-14 há que se levar em conta a variação da quantidade desse isótopo na atmosfera desde o século I. E segundo ele, no primeiro século de nossa era houve um pico de atividade solar responsável pela baixa do carbono-14 na atmosfera, enquanto que no século XV ocorreu um fenômeno inverso. Claro, pois, que tudo isso teria que ser considerado no exame que se fez. Mas não é só. A própria história do Sudário, ao longo dos séculos, seria capaz de alterar a composição química do carbono que ele contenha. O Sudário esteve exposto, anos e anos, naquelas frias e úmidas igrejas medievais (ainda que levemos em conta a sua história só de 1350 para cá). Nesses locais, mal ventilados, multidões de fiéis enchiam o ar de dióxido de carbono e as velas e círios acesos enfumaçavam o ambiente. Houve um incêndio em 1532 que atingiu a caixa de prata em que a relíquia estava guardada, derretendo-a e incendiando o tecido. Tanto o fogo como a água que foi jogada nessa caixa deixaram marcas no Sudário, visíveis até hoje e hão de ter arrastado e alterado as partículas de carbono. É também essencial, para que aquele teste seja válido, que não haja nenhuma outra matéria orgânica misturada na peça em análise. No entanto a microscopia anteriormente realizada havia detectado uma enormidade de partículas minerais além de fragmentos de cabelos, cera de vela, fibras de várias plantas, musgos, fungos e pólen. Imaginemos ainda quantas mãos tocaram o Sudário, quantas bocas o beijaram, em quantas procissões foi conduzido ao ar livre. Tudo isto faz com que os testes realizados nos minúsculos fragmentos do tecido sejam de validade altamente duvidosa. Como, pois, a partir dos exames feitos agora, havemos de invalidar as conclusões a que chegou aquela Comissão de 1978? Por exemplo: Max Frei, um criminologista suíço que conquistou renome internacional pela sua habilidade de analisar substâncias microscópicas, é denominado o Sherlock Holmes do Sudário. No exame que realizou no tecido ele encontrou todas aquelas partículas minerais, cera, fibras, musgos, etc., que mencionamos acima. Mas o mais importante em suas descobertas foram os grãos de pólen. O pólen é aquela espécie de "poeira" que sai das plantas floríferas, com função fecundante. O pólen pode manter suas características por milhões de anos e sob um microscópio eletrônico revelam características tão perfeitas que é possível determinar, com absoluta certeza, a espécie de planta que os produziu. Seria possível, por essa análise, saber se o Sudário jamais saíra do Mediterrâneo ocidental, onde se sabe que ficou desde o século XIV ou se estivera em outras regiões do globo. Pois Max Frei encontrou no tecido pólen de plantas halófilas só existentes nas regiões desérticas do Vale do Jordão. Se o Sudário não provém dessa região, o falsário que o produziu deve tê-lo conduzido até lá, na certeza de que, seis séculos mais tarde, a ciência haveria de arranjar um modo de provar-lhe a fraude se tais cautelas não fossem tomadas a tempo. Na verdade pelo menos 32 espécies de plantas só existentes até hoje na Palestina deixaram sua presença consignada no Sudário, além de oito tipos de plantas mediterrâneas de presença compreensível no tecido pela história da relíquia na França e na Itália.

Além do Dr. Max, o Professor Raes, da Bélgica, encontrou de mistura com as fibras de linho da relíquia resquícios de um tipo de algodão de inquestionável procedência do Oriente Médio, o que prova que o mesmo tear em que o Sudário foi feito servira para a confecção de outros tecidos, elaborados naquela região. Que gênio terá sido o tal falsário!

A Comissão de cientistas de 1978, já referida, realizou 140 testes no Sudário, empregando a mais alta e sofisticada tecnologia que se conhece: análise química, análise termográfica, epidiascopia, espectrometria de massa, microespectrofotometria, reflectância, micro-sondagem, filtragem da imagem por estroboscopia, microdensitometria, fotomacrografia e fotomicrografia, fluorescência por raios X e sei lá que raios mais. Só os exames de raio X com fluorescência, diz o Dr. John Heller, forneceram cerca de mil informações! O fato é que muitos dados constantes do Sudário são absolutamente invisíveis a olho nu. Que espécie de falsário foi esse que pintou, no século XIV, o que só seria visto no século XX e assim mesmo através de toda essa traquitana científica?

Estão nesse caso as duas moedas sobre os olhos da imagem, identificadas como leptos, moedas mandadas cunhar por Pôncio Pilatos e que, por conseguinte, só circularam entre os anos de 26 e 36 de nossa era.

Os sinais dos cravos nos pulsos, sobre os quais já falamos em 1981, por esta Revista, contrariam toda a iconografia que se conhece desde a antigüidade, pois que estão localizados nos pulsos e não nas palmas das mãos. No entanto está provado ser absolutamente impossível manter-se alguém na cruz fixado pelas palmas das mãos. Mas um cravo, espetado à altura da primeira dobra do pulso vai cair, naturalmente, no chamado Espaço de Destot, alargando esse espaço pela compressão dos ossos que não se quebram por esta forma mas que se apertam e oferecem suficiente resistência para suster um corpo. E há um detalhe extra: um cravo penetrando aquela região do pulso vai, infalivelmente, ferir o nervo mediano pela sua parte interna, que é sensitiva (o que causaria uma dor indescritível). Mas como esse nervo é também um nervo motor, sua estimulação mecânica produzida pelo cravo iria excitar os músculos tenarianos, fazendo com que o polegar se encolhesse junto à palma da mão. Examinemos agora as fotos do Sudário: nelas os polegares não aparecem. No entanto, exames realizados por computadores provaram que esses dedos não foram apenas omitidos daquilo que poderia ser uma pintura. Eles estão presentes na imagem da Mortalha, mas recolhidos contra as palmas das mãos. Qual o falsário que poderia fazer isso?

E a presença de terra, invisível a olho nu, mas detectada pela espectrometria, que se encontra nos pés, nas chagas dos joelhos e no rosto, mostrando que o Homem do Sudário caminhou descalço, caiu, ferindo seriamente os joelhos e, ao cair, bateu o rosto contra um chão poeirento? E a chaga do peito, cujas dimensões coincidem exatamente com as das lanças da infantaria romana? E as centenas de marcas da flagelação, que têm o tamanho preciso das plumbatae que era costume colocar nas correias do flagrum romano? E note-se que este instrumento, embora figure em antigas moedas romanas, só recentemente foi examinado em suas exatas proporções através de um exemplar autêntico descoberto nas ruínas de Herculano. E o achatamento da parte dorsal da imagem? Os cientistas puseram um homem, de porte igual ao do Homem do Sudário, deitado nu sobre uma mesa com tampo de vidro. O achatamento que se apresentou em seu dorso foi mensurado e comparado com o da imagem da Mortalha: são matematicamente idênticos.

E, para abreviarmos, o mais surpreendente: a imagem do Sudário, quando examinada pelo VP-8 Analisador de Imagens, apresenta uma informação tridimensional! Nenhum cientista, até hoje, encontrou explicação para esse fenômeno, nem artista nenhum, por eles convidado, conseguiu produzir uma imagem que provocasse tal efeito. A única figura que se conhece no mundo, seja pintura ou retrato, a única imagem bidimensional que se apresenta em três dimensões no VP-8 é a do Sudário. E a explicação para isso ninguém conhece.

E as lesões visíveis apenas sob luz ultravioleta? E a exsudação de hemoglobina e de soro nas bordas das feridas, detectáveis apenas pelo exame de fluorescência? Tudo isto e tanta coisa mais foi que levou os cientistas físicos que examinaram o Sudário a uma conclusão única: a imagem que ele apresenta não pode ser o resultado de olho/cérebro/mão.

Que mais?

Parece que só uma conclusão se impõe: o Sudário não é uma falsificação. Se o Homem que ele retrata é Jesus mesmo, é outro problema (embora técnicos da Faculdade de Ciências da Universidade de Turim, através de cálculos estatísticos, terem concluído que a possibilidade do Homem do Sudário não ser Jesus é de 1 em 225 bilhões). Mas, sejam os testes recentes do carbono-14 válidos ou não (e parece que não o são, conforme razões expostas), um fato é inegável: em alguma época da humanidade um homem de 1,81 m de altura, tipo mediterrâneo clássico, de barbas e cabelos longos, foi esbofeteado com violência, foi barbaramente açoitado por duas pessoas que usavam chicotes em tudo idênticos ao flagrum romano, recebeu sobre a cabeça alguma coisa que produziu múltiplos ferimentos puntiformes que provocaram abundante sangramento, carregou um objeto áspero sobre o ombro direito, que alargou as chagas da flagelação, caiu, ulcerando os joelhos e foi crucificado pelo método romano, sendo que, depois de morto mas ainda em posição vertical, recebeu no peito um lançaço de uma lancea romana, cujo ferimento fez verter sangue e fluido sangüíneo, sendo este último conseqüente da flagelação sofrida anteriormente sobre o tórax. Depois esse homem esteve envolto no Sudário por um tempo não superior a 72 horas (os vapores amoniacais do cadáver são visíveis no tecido, mas teriam manchado a imagem se o tempo de exposição fosse maior). E por algum processo que não se explica, seu corpo produziu uma oxidação acidodesidratante do linho, criando uma carbonila cromófora responsável pela formação da imagem, que contém, sem se falar na perfeição anátomo-patológica, uma informação tridimensional detectável pelo VP-8.

Quem era esse homem, quando, como e por que tudo isso ocorreu? Essas, pensamos nós, as perguntas que devemos fazer, pois são essas as respostas que nos faltam.

Obras Consultadas:

Barbet, P. - A Paixão de Cristo Segundo o Cirurgião - Edições Loyola.

Baschera, R. - O Santo Sudário - Editora Tecnoprint.

Heller, J. H. - O Sudário de Turim - Editora José Olympio.

Stevenson, K e Habermas, G. - A Verdade sobre o Sudário - Edições Paulinas.

Wilson, I. - O Santo Sudário - Editora Melhoramentos.

dezembro/1988

O SUDÁRIO DE TURIM - FENÔMENO PARA-NORMAL ?

Sylvio Ourique Fragoso





Parte I



Todos, certamente, já ouviram falar do "Santo Sudário", guardado na catedral de São João Batista, em Turim, Itália. Embora sempre pairassem dúvidas sobre sua autenticidade, é absolutamente certo que, pelo menos a partir do século XIV, a relíquia vem sendo conservada como sendo a mortalha que, comprada por José de Arimatéia, envolveu o corpo de Jesus ao ser levado à sepultura.

A maior parte dos dados que aqui ventilaremos consta do livro "O Santo Sudário" de Ian Wilson, publicado pela Melhoramentos e cuja leitura gostaríamos de recomendar a todos. Ali o autor apresenta uma síntese das pesquisas científicas feitas sobre o Sudário, até 1978, e mais o notável retrospecto histórico que realizou, a começar das referências evangélicas (Mt. 27,59; Mc. 15,46; Lc. 23,53) até novas notícias do Sudário no ano 30 DC, seguindo daí pelos séculos afora, culminando pelas pesquisas recentes, onde até o instrumental altamente sofisticado da NASA entrou em jogo. Com muito trabalho de pesquisa e muitos golpes de sorte (ou, mais provavelmente, muita ajuda do Alto) pôde esse autor seguir a trajetória da relíquia até o século XIV, quando o Sudário passou a pertencer, por doação, à Casa de Savóia, a quem ainda pertence.

O espaço de que dispomos não nos permite acompanhar todo o notável retrospecto histórico realizado. Entretanto, essa pesquisa e principalmente os minuciosos dados que a análise científica do tecido puderam acumular, fazem admitir como inconteste que o Sudário de Turim seja de fato o lençol que amortalhou Jesus. As evidências são tantas, que o Dr. John Robinson, um dos pesquisadores, afirmou que a questão se invertera, de forma que quem duvidar da autenticidade do Sudário é que deverá apresentar provas que justifiquem sua descrença.

O Sudário consiste em um tecido de linho, sem emendas, de 4,30m de comprimento por 1,10m de largura. Nele está impresso em sépia monocromática a imagem dupla de um corpo de homem, frente e dorso, em oposição pela cabeça. Essa figura, muito débil, é melhor percebida quando observada à distância. De perto, seus contornos se esbatem e ela praticamente desaparece.

A dupla imagem formada explica-se pelo fato de ter sido o corpo que ela retrata, depositado de costas sobre o tecido, que foi depois dobrado por sobre a cabeça, até cobrir os pés. A coloração da imagem lembra aquelas marcas que um ferro de passar, muito quente, deixa sobre um pano branco. É extraordinário notar que essa imagem está impressa em negativo, de sorte que nos negativos fotográficos ela aparece, com toda a clareza, em positivo.

As análises científicas realizadas descartam a possibilidade daquela imagem ter sido obra de algum artista do 14º século, como se dizia que era. Não há pigmentos de nenhuma espécie no Sudário. Ademais, quem no século XIV, teria noção de um negativo fotográfico? E ainda que a tivesse, como faria ele para "pintar" em negativo? Considere-se ainda que o Homem do Sudário está nu, coisa que certamente nenhum artista sacro, à época, se atreveria a fazer ao retratar Jesus. E depois, a exatidão dos dados anatômicos, a perfeita direção de cada gota de sangue, os mil detalhes retratados com absoluta perfeição, fariam desse artista um gênio superior a quantos se conhecem.

Seria longo descrever todas as técnicas usadas nas pesquisas feitas sobre o Sudário. Especialistas de renome mundial em vários ramos da ciência foram convocados. Fizeram análise química, análise tecnológica da contextura do tecido, microscopia de elétrons, palinologia, análise termográfica, microanálise e micro-sondagem, epidiascopia, espectrometria de massa, microdensitometria, análise da imagem pelo Sistema VP-8 de Interpretação, análise físico-química, análise arqueológica, antropométrica, antropológica, médica, patológica, e não sei que mais.

Vejamos em resumo, o resultado de apenas algumas dessas pesquisas, em especial as conclusões das autoridades médicas.

O Sudário de Turim mostra, sem dúvida, a imagem de um homem morto. E mais, morto pelo processo da crucificação. Sua altura é de 1,81m. Seu peso, cerca de 77 Kg. Seu tipo racial, o mediterrâneo clássico. Esse homem usava barbas, repartidas ao meio e cabelos longos, até um pouco abaixo dos ombros. Contava mais de 30 e menos de 45 anos. Tinha o corpo sólido e bem proporcionado. A única assimetria está no ombro direito, mais baixo que o esquerdo, aparentemente por ter sofrido uma deslocação ao ser crucificado. Há evidências de que os dois braços não formaram o mesmo ângulo na cruz, tendo o direito sofrido uma contração que o fez ser pregado com a mão bem mais próxima à cabeça, enquanto que o esquerdo ficou estirado completamente.

Embora o corpo todo apresente sinais evidentes de ter sido barbaramente castigado, nenhum osso do Homem do Sudário foi quebrado. O septo nasal sofreu um desvio, com ruptura do tecido cartilaginoso, provavelmente em decorrência de uma pancada no rosto. Há intumescência de ambas as sobrancelhas. A pálpebra direita está rasgada. Há também um grande inchaço sob o olho direito. O nariz está inchado. Há um ferimento triangular na face direita, talvez decorrente de uma bofetada desferida por alguém que usasse um anel. A face esquerda está túrgida. O lado esquerdo do queixo está bastante inchado.

O Homem do Sudário sofreu, além disso, violenta flagelação, da qual só escaparam a cabeça, os antebraços e os pés. As marcas da flagelação formam grupos de três, cada uma com 4cm de comprimento e atingem principalmente as costas. O número de chicotadas que o Homem do Sudário recebeu não pôde ser contada com exatidão, mas foi entre 90 e 120. As correias dos chicotes usados eram guarnecidas com bolas geminadas de metal, e essas bolas é que formaram as marcas de 4cm. O instrumento empregado na flagelação foi facilmente identificado. Trata-se do flagrum romano. Exemplares autênticos encontrados em Pompéia coincidem exatamente com as marcas deixadas no Homem do Sudário. A análise demonstrou também que os flageladores foram dois, postados por trás da vítima, um à esquerda, outro à direita. O da direita era mais alto e ao ferir fazia com que o chicote atingisse também as pernas e o peito do condenado.

O Sudário mostra com clareza, e isto é notável, que o homem que nele esteve envolto recebeu, sobre a cabeça, uma "coroa" de espinhos. Essa coroa não era como mostram os quadros sacros e o cinema. Tratava-se de uma espécie de capacete, um entrançado de espinhos que perfurou também o alto da cabeça, além da testa, da nuca e dos lados, provocando abundante sangramento.

Em ambos os ombros, por sobre as marcas da flagelação, há evidências de novos ferimentos. Ambas as áreas apresentam grandes escoriações causadas pelo atrito de um objeto pesado, que friccionou uma região já machucada da pele. São, sem dúvida, os ferimentos causados pelo carregar da cruz. O Sudário mostra que aquele homem não carregou toda a cruz, mas apenas o patibulum, o travessão horizontal. Mais uma vez a imagem do Sudário confirma um detalhe histórico e desmente as criações dos artistas, pois realmente, ao tempo de Jesus, o condenado à crucifixão era forçado a carregar o braço da cruz pelas ruas. O poste vertical, o stipes, já estava geralmente afixado no lugar do suplício.

O travessão que o Homem do Sudário carregou em seus ombros pesava cerca de 45 Kg. Parece que houve dificuldade no percurso, pois há escoriações bastante sérias em ambos os joelhos, sugerindo algumas quedas, sendo que o joelho esquerdo apresenta enorme contusão.

São bem evidentes as marcas da crucificação. E aqui novamente a imagem do Sudário desmente as artes e encontra pleno apoio na realidade, conforme as pesquisas científicas recentemente realizadas com cadáveres vieram a demonstrar. É o que veremos a seguir.

abril/1981.



O SUDÁRIO DE TURIM

FENÔMENO PARANORMAL ?

Parte II

A imagem do Sudário mostra que os cravos não foram afixados nas palmas das mãos, e sim junto à dobra principal do pulso. Os cravos passaram entre os ossos, afastando-os sem quebrá-los, exatamente no chamado "espaço de Destot". Os carrascos deveriam saber, por experiência, que ali os cravos facilmente atravessariam os tecidos e encontrariam resistência bastante para que o corpo se mantivesse dependurado. De fato, experimentos mostram que quando os cravos são pregados nas palmas das mãos, fazem com que elas se rasguem pelo peso do corpo, que então se despenca. Um detalhe a mais: passando pelo "espaço de Destot" os cravos atingem o nervo mediano e assim os músculos dos polegares fazem com que eles se encolham junto às palmas. Ora, é exatamente assim que estão os polegares do Homem do Sudário. Que artista, no século XIV, teria tal conhecimento de anatomia, caso a imagem do Sudário fosse uma falsificação?

O Homem do Sudário teve ainda os pés atravessados por um único cravo, que passou entre os ossos metatársicos, tendo, na crucificação, o pé esquerdo ficado sobre o direito.

Finalmente, ao lado direito da imagem vê-se uma grande chaga, de forma elíptica, com 3,4 cm de comprimento por 1 cm de largura. As dimensões dessa chaga correspondem exatamente às medidas da lancea romana, conforme se constata pelos exemplares autênticos ainda existentes. Esse ferimento encontra-se entre a 5ª e a 6ª costelas, e a 6,3 cm da linha central do tronco. O fluxo de sangue que verteu dessa chaga correu para baixo e é visível, no Sudário, por 15 cm. A direção do sangue prova que a vítima recebeu o lançaço quando ainda estava na cruz. Mas há um segundo fluxo sangüíneo que mostra que a ferida voltou a sangrar quando o corpo foi depositado no Sudário. Ambos os fluxos aparecem misturados a um fluido claro que brotou do mesmo ferimento. Isto vem em apoio ao descrito no Evangelho de João, que afirma que do ferimento produzido pela lança em Jesus, saiu sangue e água. Esta "água" os primeiros pesquisadores do Sudário julgaram ser o serum do pericárdio. A hipótese mais aceita hoje, porém, é de que a flagelação sofrida pelo Homem do Sudário tenha produzido um acúmulo de fluido sangüíneo na cavidade pleural. Segundo o Dr. Anthony Sava, a violenta flagelação no tórax poderia determinar grande acúmulo desse fluido. Nas experiências que realizou, o material recolhido de cadáveres não se coagulara, tendo tomado uma coloração vermelho escura, coberta por um fluido leve e claro. Ainda conforme o Dr. Sava, se a lança tivesse perfurado o lado esquerdo do peito, quase nenhum líquido teria vertido, pois o ventrículo desse lado fica praticamente vazio após a morte, enquanto que a aurícula direita se enche de sangue. Ora, um ferimento profundo no local indicado pela imagem do Sudário, provocaria a saída de uma espessa base de "células" sanguíneas e depois, quando seu nível baixasse, do líquido claro, acumulado pelos traumatismos sofridos.

A Ciência responde

Há uma pergunta que a ciência hoje pode responder: de que morriam os condenados à cruz?

Quando uma pessoa acabava de ser crucificada, seu rosto ficava inicialmente vermelho, pelo esforço que o próprio peso determinava, sendo esse rubor logo substituído por grande palidez. Em seguida, como a posição dificultava sobremaneira a respiração, o rosto acabava por assumir uma coloração violácea. Cerca de onze minutos após a crucificação, a pressão arterial ficava reduzida à metade. A perda de sangue e a respiração muito acelerada, acarretavam grande sede.

Quando o crucificado conseguia descarregar o peso do corpo sobre os pés, a pressão arterial podia subir um pouco. A grande dor que isto acarretava, contudo, não permitia ao condenado manter esse apoio e logo o peso era sustentado de novo pelos pulsos. Parece claro, então, que os crucificados permaneciam nesse movimento de vai-e-vem, à procura de um alívio que não achavam. Provam-no os ossos gastos no lugar dos cravos, encontrados em antigos cemitérios.

Os romanos, quando viam que um condenado à cruz demorava muito a morrer, quebravam-lhe as pernas, ou melhor, as rótulas. Impossibilitando dessa forma de se apoiar nos pés, o condenado tinha a pressão arterial cada vez mais baixa, a respiração cada vez mais dificultada e a irrigação sangüínea cada vez mais deficiente, até que a morte sobreviesse. No caso do Homem do Sudário, tal como ocorreu com Jesus, não houve necessidade de quebrar-lhe as rótulas. A violenta taquicardia acarretou-lhe a morte por insuficiência cardíaca.

Mas por qual processo aquela imagem misteriosa pôde ser impressa no linho, em negativo, mas com tamanha clareza a ponto de permitir uma autópsia como se o cadáver que ele conteve estivesse presente à mesa de um legista?

Impressão através da irradiação

Ao contrário do que se poderia imaginar, a imagem do Sudário não se formou por impregnação de sangue, suor, nem de qualquer essência colocada sobre o cadáver. A imagem está "impressa" exatamente como se do cadáver uma irradiação se desprendesse, "fotografando" o corpo no tecido. De fato, a imagem do Sudário foi criada à distância e não pelo contato direto com o corpo, pois há tons levemente graduados na imagem, conforme a distância em que os vários pontos do tecido ficaram em relação ao modelo, quando o cadáver foi nele depositado. Foram tomadas medidas exatas sobre a distância perpendicular entre o tecido e o corpo em todos os pontos. Há uma correspondência matemática entre a intensidade da imagem e aquela distância. A homogeneidade desses dados evidencia um processo, estranho, sim, mas cientificamente mensurável de formação da imagem, provando que ela se formou por forma de "irradiação" que, partindo do corpo, tenha impressionado todo o tecido.

A imagem impressa lembra uma crestadura provocada pelo calor. Sua cor sépia parece resultar do 1º estágio do processo de oxidação, que antecede a queima. Os experimentadores conseguiram criar marcas semelhantes às do Sudário expondo um pedaço de linho às irradiações de um objeto de metal bastante aquecido. Entretanto a análise espectroscópica mostra que todas as partes do corpo impresso no Sudário, seja sangue, cabelos ou pele, acusaram a mesma intensidade de cor comparada com as densidades neutras, mostradas pela exploração do microdensitômetro. Só as imagens do sangue são ligeiramente mais avermelhadas. De qualquer forma, como um corpo morto poderia produzir calor suficiente para crestar o tecido, e de forma tão controlada que pôde criar uma imagem com todos os seus detalhes e sem nenhum dano ao linho? A conclusão a que os cientistas estão chegando é que teria ocorrido uma espécie de brilho termonuclear, algo semelhante ao acontecido em Hiroshima quando da explosão da bomba atômica. Naquela cidade o brilho da bomba foi tamanho que em alguns locais deixou as sombras produzidas por sua luz. No telhado do edifício da Câmara do Comércio ficou retratada a torre do próprio edifício. Um pintor sobre uma escada teve sua imagem impressa numa parede e um carroceiro que passava perto da ponte do Museu da Ciência e Indústria permaneceu, como sombra, no momento em que ia chicotear o seu cavalo. Claro que na imagem do Sudário, o processo que crestou o tecido foi muito mais controlado. Teria ocorrido com o Sudário uma "explosão" de enorme intensidade e curtíssima duração, que agiu com a mesma intensidade para cima, para baixo e para os lados. Os cientistas falam em uma "fotólise do brilho" que terá durado um milissegundo. Ian Wilson admite que o Sudário mostre um verdadeiro "instantâneo" da Ressurreição.

Brilho termonuclear

Podemos imaginar que o brilho termonuclear que marcou o tecido tenha determinado ou ocorrido simultaneamente à desmaterialização do corpo de Jesus, o que justificaria o fato do túmulo ter sido encontrado vazio naquele memorável domingo. Segundo Mateus (28-2,3) teria havido um terremoto que fez com que os guardas do sepulcro ficassem desacordados. Claro que esse "terremoto" só ocorreu junto ao próprio túmulo, pois nem as mulheres que para lá estavam se dirigindo, àquela hora, notaram o fenômeno. Depois disso, tudo que foi visto na sepultura foi o Sudário e "outros panos", como narram os evangelistas. O Sudário de Turim mostra que o corpo nele envolvido fora atado por panos no queixo, nos pulsos e nos tornozelos.

Mas se o Homem do Sudário é Jesus, por que teria Ele querido deixar retratada a Sua imagem? Seria por considerar os "Tomés" dos tempos futuros? É certo que mais de um cientista adotou o cristianismo após o exame do Sudário, mas essa razão, conquanto significativa, não nos parece suficiente. Motivos mais profundos existirão.

De qualquer forma, o Sudário existe. Atravessou os séculos, escapando a inundações, incêndios, perseguições, roubos, ambições. O Sudário existe, apesar dos homens. Aquele semblante, sereno e majestoso, não obstante ferido e ensangüentado, parece nos questionar a todos, vindo do fundo dos séculos. A impressão que se tem ante aquela imagem é que ela, mais que aos olhos, fala-nos à consciência. Talvez para dizer-nos:

- "Eu estive no mundo e não fui reconhecido".

Ou então indagando:

- "Aonde vais?"

maio/1981

FENÔMENOS MEDIÚNICOS NA VIDA DOS SANTOS

Sylvio Ourique Fragoso



Parte XI



Santo Antônio de Pádua

(Obra consultada: História de Santo Antônio de Pádua, do Revmo. Pe. At. Imprimatur, de Monsenhor Castro, Vigário Geral).

Este, um dos maiores taumaturgos da Igreja. Incorporado às tradições populares do Brasil e de Portugal, é dos mais simpáticos à alma do povo e depositário da esperança de quantos se desesperam de casar.

Nasceu em 1195, em Lisboa, recebendo o nome de Fernando de Bulhões. Aos quinze anos entrou para o convento dos Cônegos de Santo Agostinho, transferindo-se depois para o Mosteiro de Coimbra, onde esperava se ver livre do assédio de parentes, a fim de poder mais se dedicar às orações e ao estudo da Teologia. Em 1220, após contemplar os cadáveres de cinco missionários franciscanos, mortos em Marrocos, mudou-se para o Convento dos Franciscanos, adotando o nome de Antônio.

Famoso por seus dotes oratórios, por seu intermédio muitos fenômenos mediúnicos tiveram lugar, o que fez com que São Boaventura escrevesse: - "Se procurais milagres, ide a Antônio". Vejamos alguns.

Na Abadia de Solignac, diocese de Limoges, havia um monge "atormentado pelas tentações da carne". De nada lhe valiam os jejuns, as orações, vigílias e macerações. O pobre religioso procurou, então, a Antônio, cuja fama já era grande, e pediu ajuda. Tirando a túnica que usava, o taumaturgo manda que o monge com ela se vista. Vejamos o que diz textualmente a obra que consultamos:

"Apenas o religioso fez o que Antônio ordenara, uma virtude poderosa comunicou-se das dobras da pobre túnica. Era como uma emanação da castidade de alma e de corpo daquele a quem ela pertencia. O efeito não se fez esperar. A tempestade dos sentidos aplacou-se logo no religioso, que não sentiu mais agitações de tal ordem".

Consideremos o que terá havido aqui.

Embora sem perder de vista a possibilidade de que tudo não tenha passado de uma auto-sugestão sofrida pelo monge, ao vestir o manto de quem tinha em alta conta, o fenômeno tem muita característica daqueles em que há transmissão de energias fluídicas. No Ato dos Apóstolos encontramos fato semelhante:

Deus fazia milagres extraordinários por intermédio de Paulo, de modo que lenços e outros panos que tinham tocado seu corpo eram levados aos enfermos; e afastavam-se deles as doenças e retiravam-se os espíritos malignos. (At.19,11 e12).

Na obra de Roque Jacintho Passe e Passista, lemos:

"As peças do vestuário, assim como os objetos de uso pessoal, são condutores de fluidos. Justapostos ao corpo, transmitir-lhe-ão os recursos de cura ou de melhora de suas enfermidades orgânicas ou psíquicas, influindo inclusive nos acompanhantes desencarnados em estado de infeliz desequilíbrio".

É o que parece ter havido no caso que narramos. O monge deveria ter seus instintos açulados por um desequilíbrio emocional de que se valiam entidades obsessoras. Note-se a maneira como o religioso procurava se libertar de seus tormentos: vigília, jejum, macerações. Que mais seria preciso para um depauperamento físico e psíquico? A capa de Antônio, impregnada que estava de seus fluidos, teria bastado para restabelecer o equilíbrio psico-físico, e afastar as entidades perturbadoras, dando ao monge a calma que almejava.

Dos milagres de Antônio de Pádua, o mais famoso porém, talvez seja o da bilocação, mediante o qual, estando a orar na Espanha, apareceu em Pádua, a tempo de interceder em favor de seu pai, que ia ser enforcado injustamente. Esse tipo de fenômeno, bastante comum, tem constituído motivo para muitas e muitas páginas escritas por pesquisadores de todas as partes do mundo. Durville ao fazer experiências com duas pacientes magnetizadas, Minette e Marta, notava que delas se desprendia como que um vapor que se adensava e assumia a forma física das pacientes adormecidas, afastando-se de seus corpos.

O caso de Émile Sagée é famoso. Narrado por Aksakof (Animismo e Espiritismo) foi alvo de comentário de muitos outros autores. Em 1945 lecionava ela em Riga, no Colégio Neuwelcke. Por seus dotes era muito estimada, mas as alunas do colégio viviam assustadas, pois costumavam ver a professora em lugares diferentes e ao mesmo tempo. De uma feita, 42 alunas viram que enquanto o corpo físico de Émile estava sentado em uma cadeira, imóvel, no jardim seu duplo fluídico passeava a brincar com as flores. No momento em que uma das alunas, vencendo o espanto, tocou o corpo de Sagée, na cadeira, instantaneamente sua imagem desapareceu no jardim, como uma bolha de sabão que rebentasse.

Como os pais de muitas alunas começassem a retirar suas filhas do colégio, onde as moças viviam apavoradas, Émile teve de ser despedida. Era a 19ª vez que isto se dava, pelo mesmo motivo.

Voltemos ao nosso biografado.

Finalmente, depois de uma vida de sacrifícios e de abnegação, o grande médium está à morte. Longe dali, o abade de Vercelli orava em seu quarto, quando Antônio entrou, saudou-o e disse:

- "Sr. abade, comunico-lhe que deixei o meu asno (o corpo) em Pádua; parto pressuroso para a minha pátria".

E desapareceu.

O abade tomou nota do dia e hora do acontecido, constatando posteriormente ter havido coincidência entre a aparição e a morte de Antônio.

Não se pode deixar de encomiar ao abade de Vercelli pela sua lembrança de anotar o momento em que o fenômeno se deu. Em 1231 já existiam pessoas com pendores para as pesquisas psíquicas...

Quanto ao fenômeno em si, por certo nenhuma estranheza há de causar ao leitor que bondosamente nos acompanha, pois que as manifestações desse gênero, no momento da morte, são tão freqüentes que cremos ser rara a família que não tenha fato análogo em sua história. De incidentes dessa ordem estão repletos os livros espíritas e os de pesquisas paranormais. Flammarion dedicou todo o segundo volume de A Morte e o Seu Mistério a tais fatos. Nihil novum sub solem... Mas Antônio não só apareceu de forma inequívoca, como também falou. Será isto muito extraordinário?

Embora menos comum que a simples aparição no momento da morte, o fato do fantasma falar não é, contudo, inédito. Vejamos o caso seguinte, que Flammarion retira de Coisas Vistas, de Victor Hugo:

A Sra. Guérin, de 66 anos estava enferma. Às cinco horas da manhã, como sua filha se dispusesse a ir visitar a Sra. Lanne, antiga tendeira que àquela hora deveria estar de volta do campo, a Sra. Guérin diz à filha:

- "É inútil. A Sra. Lanne morreu. Às quatro horas da manhã, estando bem acordada, vi a Sra. Lanne passar e dizer: - Vou partir. Vindes também?"

Constatou-se depois que a velha tendeira havia, de fato, desencarnado naquele horário.

É ainda Flammarion que nos brinda com este outro caso, que lhe foi narrado por carta:

Um tenente de São Luiz do Senegal havia se deitado lá pelas onze horas. Acordou, depois, sentindo forte pressão no peito e, bruscamente sacudido, sentou-se na cama, tendo à frente a sua avó que lhe diz:

- "Venho dizer-te adeus, meu querido menino; nunca mais tornarás a ver-me".

O horário da aparição coincidiu com o da morte da anciã.

Ao abade de Vercelli, o Espírito de Antônio diz que parte pressuroso para sua pátria, e este fato foi tido como milagroso. Esta aparição a Igreja reconhece como verdadeira. Mas vá alguém falar de uma avó que venha dizer adeus ao neto querido, antes de partir, ela também, para a sua pátria...

Aí ficou, num exame "à vol d’oiseau", a biografia de alguns vultos notáveis dentre as muitas centenas que ilustram o vasto acervo hagiológico, e os principais feitos mediúnicos que os celebrizaram. Em rápidas pinceladas pôde-se comparar os fatos ditos milagrosos e a fenomenologia espírita, de montante não menos rica. Qualquer dos fenômenos analisados poderia, sem dúvida, receber maior aprofundamento, mas a literatura especializada é facilmente disponível e nela o leitor interessado encontrará melhor exposição que aquela que poderíamos fazer.

Do enorme volume hagiológico, apenas tratamos de uns poucos santos, dentre os mais conhecidos, mas em todos a tônica é a mesma: intuições, premonição, visões, levitação, curas, aparições, etc.

Um fato é notório, e ele sintetiza todo o objetivo destas nossas linhas. Se qualquer dos médiuns cuja memória o Espiritismo guarda em seus anais, vivesse em ambiente monástico, se andassem eles a braços com a Igreja que tão asperamente os repudia, então sua visões, suas mensagens, suas produções mediúnicas, enfim, seriam tidas na conta de milagres. As almas que por eles se manifestassem, o teriam feito "por permissão de Deus" e seriam almas de santos ou seriam anjos. Os Espíritos endurecidos doutrinados ou afastados, seriam "demônios" e as mensagens que esses médiuns recebessem seriam "revelações divinas", ciosamente guardadas na sombra dos monastérios. E sem dúvida tais médiuns, após a formalização dos processos canônicos, seriam beatificados e depois canonizados, podendo então interceder por nós junto a Deus. Essencialmente, seriam de natureza tão espiritual quanto qualquer outro que deste planeta de ilusões e preconceitos tenha partido, e biologicamente estariam tão mortos quanto os antepassados que os leitores, como nós, relembramos saudosos. Mas aqueles outros teriam direito a falar, aparecer, intuir-nos, materializarem-se, dar-nos proteção e nos acolher quando a nossa hora também fosse chegada. Porque, para isso, julgamentos humanos haviam dado a devida concessão, através de um ato litúrgico e de um título conferido. E com toda a certeza teríamos para logo o santo brasileiro, que tantas pessoas desejam. Provavelmente viria ele dos cafundós das Minas Gerais que, esgotados os filões auríferos que lhes deram o nome, teriam produzido um ouro espiritual, muito mais precioso, porque os ladrões não roubam e nem o tempo esfarela.

Como, porém, a ideologia filosófico-religiosa é outra, temos de permanecer anatematizados, excomungados, e olhados com suspeita. Livre-nos Deus de voltarem a arder as fogueiras da Inquisição, também chamada santa, pois que aí seríamos, nós por termos escrito, e os leitores por haverem lido, devidamente churrasqueados em praça pública, tudo em nome da fé, da moral e dos costumes.

FINAL

maio/1980

FENÔMENOS MEDIÚNICOS NA VIDA DOS SANTOS

Sylvio Ourique Fragoso



Parte X



Santa Liduína

Havíamos visto que Liduína apresentou por várias vezes fenômenos de premonição, que foram considerados como milagres. Entretanto, esta faculdade tem sido encontrada em muitas pessoas, e nos mais diversos graus. Croiset, por exemplo, era um sujet que havia demonstrado possuir uma alta sensibilidade para predição de coisas futuras. Com ele o Dr. Tenhaeff realizou o seguinte experimento:

Tratava-se de acertar, com três dias de antecedência, qual pessoa se sentaria numa, dentre trinta cadeiras de uma determinada sala de espetáculos públicos. Sorteou-se o número dezoito. Croiset responde que em relação àquela cadeira não recebia impressão alguma. Sorteou-se outra e o sensitivo, então declara que aquele assento seria ocupado por uma mulher que teria o rosto marcado em conseqüência de um acidente.

Na noite da reunião, seu prognóstico confirmou-se integralmente. Com relação à cadeira dezoito, sobre a qual Croiset nada sentira, foi a única, em toda a sala, a permanecer desocupada aquela noite.

Croiset chegou a prestar inestimáveis serviços à polícia, em virtude de seus dotes mediúnicos ou paranormais, se o preferirem. Edsall (O Mundo dos Fenômenos Psíquicos) nos brinda com este caso, particularmente curioso:

Em dezembro de 1946, em Wierden, uma jovem foi brutalmente agredida a marteladas por alguém que ela não chegou a ver. O agressor conseguiu fugir, deixando como pista apenas o martelo. Sendo baldos os esforços da polícia para identificar o assaltante, o prefeito de Wierden, conhecendo a fama de Croiset, pediu seu concurso. O médium apanhou o martelo, segurou-o por momentos e declarou, ao estilo de Sherlock Holmes:

- "O criminoso é um homem de quase trinta anos. É alto, escuro e tem uma orelha um tanto deformada. Usa um anel com uma pedra azul. Este martelo não lhe pertence. Seu dono é um homem de cinqüenta e cinco anos, que vive numa das três casas que são vizinhas umas das outras. São todas chalés com telheiros baixos".

Baseada nessas informações, a polícia não tardou a por as mãos no agressor, que acabou por confessar o crime.

As sociedades de pesquisas psíquicas andam com seus arquivos repletos de fatos dessa ordem. A premonição em casos de acidentes é bastante freqüente. A Society for Psychical Research de Londres, tem arquivada, entre muitas outras, a previsão do Sr. O’Connor sobre o naufrágio do Titanic, mediante a qual ele pôde se salvar, cancelando a tempo sua reserva de passagem.

Liduína foi canonizada, entre outras coisas, pelas suas faculdades precognitivas. Já vimos que a capacidade paranormal de antevisão nada tem de miraculosa. Ninguém pensaria em colocar os sensitivos com que Rhine fazia suas experiências de parapsicologia ao lado dos santos da Igreja. Ninguém pensaria, tampouco, em mandar queimar em praça pública o Sr. O’Connor por ter pressentido a tragédia marítima do famoso navio. Triste destino, contudo teriam essas pessoas se vivêssemos ainda no tempo da "Santa" Inquisição. Mas se O’Connor, entretanto, vivesse em ambiente monástico, certamente seus pressentimentos seriam tidos à conta de avisos que Deus, não se sabe por qual deferência, lhe teria enviado.

A precognição, bem como as demais faculdades paranormais, muito embora estejam demonstradas à farta, terão sua causa íntima, seu mecanismo, sua gênese, envoltas em trevas para a Ciência até que o homem se curve à realidade do Espírito imortal. Atribuir um fenômeno dessa natureza a alguma espécie de "talento" do inconsciente, é dar a algo que não se conhece uma origem que se conhece menos. E muitos "parapsicólogos" assim procedem, como se o simples fato de se batizar um fenômeno fosse o bastante para lhe explicar a origem, o mecanismo, o fim e a causa.

Kardec, porém, perguntara aos Espíritos qual a causa primária da inspiração, e obteve a seguinte resposta:

- "O Espírito que se comunica pelo pensamento".

É que, transpondo a barreira do tempo, o Espírito pode ter como presente aquilo que para o homem, preso ainda às limitações da veste física, é futuro.

Vejamos, entretanto, para terminar, o que pode ter ocorrido com a sensibilidade mediúnica de Liduína que, conforme foi dito, não mais lhe permitia as ocorrências fenomênicas que a celebrizaram, levando o eremita do Sinai a lamentar o fato de que com a santa já não mais se comunicava na "luz incriada".

Sobre a perda da mediunidade, diz Kardec (O Livro dos Médiuns) que ela está sujeita à intermitências e a suspensões momentâneas, muitas vezes porque os Espíritos não podem ou não querem mais servir-se daquele médium. Quase sempre, quando o sensitivo se vale de sua mediunidade para coisas frívolas, quando faz mau uso dos dotes mediúnicos que possua, quando já não mais corresponde aos fins que a Espiritualidade espera, os Espíritos bons se afastam dando lugar aos menos sérios. Porém ocorre igualmente que os Espíritos ao se afastarem temporariamente, privem o médium de suas aptidões, para que isto lhe sirva de lição e aprenda que a faculdade não depende dele, razão pela qual não deve envaidecer-se. Outras vezes a mediunidade desaparece para que o médium seja forçado a um repouso ou ainda para que lhe sejam testadas a paciência e a perseverança, ou para que o médium tenha tempo de meditar sobre as instruções que lhe foram dadas. Ensinaram os Espíritos ao Codificador que se pode distinguir a perda da mediunidade por efeito da censura, quando o médium interroga a sua consciência e pergunta que uso fez de seus dotes mediúnicos, que bem resultou daí para os outros e que proveito tirou dos conselhos que lhe foram dados.

Possivelmente o inconformismo de Liduína ante à morte de seu irmão tivesse concorrido para a suspensão de suas faculdades, como bem antevira o bispo da Inglaterra. Ela, que "podia ver o destino de muitas almas", entrava agora em desespero, porque a morte lhe arrebatara alguém que muito amava, e seu desconsolo deve ter levado seus protetores espirituais a se afastarem, até que maior serenidade e confiança em Deus permitissem a Liduína prosseguir gozando as graças da presença de seu tão querido Anjo da Guarda.

As forças físicas, porém, se lhe exauriram antes que recobrasse os dotes mediúnicos, consolo único que pôde ter em toda a sua vida.

abril/1980.

FENÔMENOS MEDIÚNICOS NA VIDA DOS SANTOS

Sylvio Ourique Fragoso



Parte IX



Santa Liduína

Liduína, não obstante sua paciência e resignação, teve, em muitos momentos, crises de revolta. Quando desencarnou seu irmão Guilherme, ela não se conformou. E sucedeu como acontece ainda com muitos médiuns. Assim se expressa seu biógrafo:

"Às vezes se mostrava um tanto leviana e imprudente. Mostrou também pouca resignação em certos períodos de seus sofrimentos, tempo que estava purificando a alma. Quando, mais tarde, ela se viu privada dos dons extraordinários que Deus lhe outorgara, reconheceu, por um secreto remorso, que tal privação fora motivada pela sua falta de resignação e conformidade (...)".

Um bispo inglês que peregrinava nas imediações do Monte Sinai, encontrou um eremita que havia dezessete anos ali morava e que comentou:

- "Na Holanda, numa pequena cidade chamada Schiedam, há uma virgem muito doente que desde muitos anos vive em jejum. Muitas vezes nos comunicamos mutuamente na luz incriada. Ultimamente uma coisa me admira: de uns dias para cá ela já não se eleva da terra e eu não percebo mais, durante o êxtase, a sua presença".

Responde o bispo:

- "Eu penso que ela se aflige mais do que convém pela perda de um parente. Deus permite isso para a humilhar. Julgo que é devido à intemperança de suas lágrimas que o Senhor a priva momentaneamente de suas graças".

Veremos logo mais que o bispo não estava longe da verdade.

Finalmente, após 38 anos de sofrimento, Liduína entra em agonia. Das sete horas da manhã até às quatro da tarde, a pobre mulher vomita quase sem cessar. Às 16 horas seu Espírito se liberta. Era o dia 14 de abril de 1.433.

Não temos notícia de como aquela alma retornou ao seu estado natural, livre da matéria. A deduzir de todo o sofrimento, Liduína traria, de existências pretéritas, imensas dívidas que veio resgatar num corpo enfermiço. Não obstante algumas rebeldias, possivelmente a moça terá encontrado a paz, pois que bem pôde suportar a maior parte de seus infortúnios. Para amenizar-lhe o sofrimento e promover-lhe o progresso mais rápido foi dotada, como vimos, de dons mediúnicos que lamentavelmente veio a perder já no fim de sua existência corpórea.

Entre os fenômenos apresentados por Liduína, podemos enumerar:

Incorporação

Clariaudiência

Clarividência

Premonição

Bilocação

Estigmatização

Vejamos, em breves linhas, alguma coisa sobre essas ocorrências.

Sobre a estigmatização, já vimos não ser, necessariamente, um fenômeno mediúnico, pois que se pode reproduzi-lo experimentalmente desde que se conte com uma personalidade altamente sugestionável.

Com respeito à audição e à visão mediúnica também já falamos. A bilocação será comentada quando expusermos a vida de Antônio de Pádua. Vejamos algo sobre a incorporação e a premonição.

André Luiz assim comenta o fenômeno da incorporação:

"Reconheci que o processo da incorporação comum era mais ou menos idêntico ao da enxertia da árvore frutífera. A planta estranha revela suas características e oferece frutos particulares mas a árvore enxertada não perde sua personalidade e prossegue operando em sua vitalidade própria".

Léon Denis faz interessante comentário sobre a forma pela qual se dá a comunicação mediúnica por esta modalidade:

"Sabemos que a mediunidade, no maior número de suas aplicações, é a propriedade que têm alguns dentre nós de se exteriorizar em graus diversos, de se desprender do envoltório carnal e imprimir mais amplitude às suas vibrações psíquicas. Por seu lado, o Espírito libertado pela morte se impregna de matéria sutil e atenua suas radiações próprias, a fim de entrar em uníssono com o médium".

"Aqui se fazem necessários uns algarismos explicativos. Admitamos, a exemplo de alguns sábios, que sejam de 1000 por segundo as vibrações normais do cérebro humano. No estado de "transe", ou de desprendimento, o invólucro fluídico do médium vibra com maior intensidade, e suas radiações atingem a cifra de 1500 por segundo. Se o Espírito, livre no espaço, vibra à razão de 2000 no mesmo lapso de tempo, ser-lhe-á possível, por uma materialização parcial, baixar esse número a 1500. Os dois algarismos vibram então simpaticamente; podem estabelecer-se relações e o ditado do Espírito será percebido e transmitido pelo médium em transe sonambúlico".

Aliás, é essa necessidade de baixamento vibratório que faz com que a entidade comunicante por vezes incida em erros, tão a gosto dos detratores de má fé ou pouco esclarecidos.

O fenômeno da incorporação é sobejamente conhecido para que citemos algum exemplo, de que haveria uma infinidade para narrar. Fiquemos, pois, com a exposição teórica de seu mecanismo.

Premonição

Esta faculdade do Espírito, constatada através dos anos e negada por aqueles que teimavam em não admiti-la, por não poderem compreendê-la, já levou muita gente às fogueiras da Inquisição e aos altares das igrejas. Hoje, a realidade de sua existência está cientificamente demonstrada e ninguém, de razoável cultura, a põe em dúvida, a não ser que interesses mais fortes o motivem.

Muitas e muitas experiências foram feitas em laboratórios e fora deles, dentro de todo o rigor científico, antes de se anunciar oficialmente a realidade das manifestações precognitivas. Tyrrel, por exemplo, fez experiências com uma máquina mandada construir especialmente para esse fim, na qual uma lâmpada se acendia em um entre cinco dispositivos. Havia também cinco botões, sendo que qualquer um deles podia por o aparelho em funcionamento. Um misturador automático fazia com que nenhum cálculo pudesse permitir saber para onde seria desviada a corrente elétrica, de sorte que se o percipiente apresentasse um número de acertos superior ao previsto matematicamente pelo acaso, era indício da paranormalidade que o levara a acertar. Um dos "sujets", Miss Johnson, ultrapassou o acaso na proporção de 100.000.000.000.

Com Croiset, o Dr. Tenhaeff realizou experiências notáveis, de que falaremos no próximo número.

março/1980

FENÔMENOS MEDIÚNICOS NA VIDA DOS SANTOS

Sylvio Ourique Fragoso



Parte VIII



Santa Liduína

(Obra consultada: A Santa dos Doentes - Liduína de Schiedam , do Pe. Arlindo Rupert. Nihil Obstat, Pe. Leônidas Didonet. Imprimatur, Mons. Floriano P. Cordemunsi - Vigário Geral).

Filha de Pedro e Pedronila, pobres, honrados e piedosos, nasceu Liduína em Schiedam, na Holanda, em 1380.

Aos 15 anos é vítima de uma enfermidade que lhe produz uma deformação óssea, que faz com que seus pretendentes se afastem, coisa que em absoluto não desagrada a Liduína, que pretendia votar sua vida às práticas religiosas.

Gostava, porém, a menina, de brincar com as companheiras, e assim é que um dia vêmo-la a patinar no gelo. Uma amiga, em meio ao folguedo, dá-lhe um empurrão e Liduína cai, fraturando uma costela. Os esforços médicos não lhe conseguem minorar a dor (estávamos em 1395 ou 96). O ferimento produzido pela costela fraturada foi se agravando, produzindo-lhe dores atrozes, que não lhe permitem encontrar no leito posição que dê conforto.

Desesperada, Liduína atira-se um dia da cama e na queda rompe-se-lhe o abscesso que se havia formado.

A moça agora arde em febre. Seu corpo exala mau cheiro, e seus amigos evitam quanto pode sua presença, o que faz com que ela sofra física e moralmente.

Entre suas virtudes os biógrafos narram algumas de suas rebeldias, que lhe desmentiriam a santidade, não fora a puerícia do caso narrado. Trata-se, possivelmente, de uma lenda, como as muitas encontradas nos hagiógrafos, mas que a Igreja tem como verdadeira. Vejamos o que diz Arlindo Rubert:

"Ao vigário avarento, pedira Liduína que lhe remetesse um pouco de graxa de uns frangos que ele mandara preparar. Precisava para medicar a ferida. Desculpou-se o religioso dizendo que eram magros e a pouca graxa que deram, mal bastava para os fritar. Liduína fitou-o um instante e disse:

- Vós me recusais o que peço, a título de esmola, em nome de Jesus. Bom, eu peço a nosso Salvador para que vossas aves sejam devoradas pelos gatos"!

"Na manhã seguinte, ao abrirem o armário, encontraram apenas os ossos, pois os gatos haviam comido tudo"!

Não vamos nos deter a comentar essa estorieta. Mas se alguém duvida que muitos a aceitam como verossímil, basta procurá-la na obra em que nos baseamos...

Após muito sofrer, Liduína acaba por se conformar e a desejar, mesmo, o sofrimento, como meio de purificação. Em seu leito de dor permaneceu por trinta e oito anos. Seu estômago não aceitava alimento algum e, com as dores que tinha de suportar, Liduína quase não dormia. Nesse estado de coisas, morre-lhe a mãe. O pai, já velho e alquebrado, mal pode prestar cuidados à filha.

Certa noite, uma vela põe fogo em seu leito, queimando-lhe um braço. Era mais um sofrimento que vinha se somar aos antigos, que já tanto lhe doíam.

Entre as graças que lhe atribuem os biógrafos, uma foi a de apresentar no corpo, as chagas de Cristo. Como Antônio de Pádua, produzia bilocações. Entrava em transes e, mais nitidamente, se observava seu potencial mediúnico. Vejamos o que diz, literalmente, a obra consultada:

"Caía freqüentemente em êxtase e arrebatamento, falava com os celícolas, recebia e transmitia importantes revelações, predizia coisas futuras, gozava da presença de seu Anjo da Guarda e via a sorte de muitas almas na outra vida".

Constituirá novidade algum desses fenômenos aos espíritas? Excetuando a denominação de "celícolas", dir-se-ia que o trecho acima fora extraído de alguma obra espírita, onde se analisasse a produção mediúnica de alguém.

Com relação aos estigmas, deve-se considerar, por economia de hipóteses, terem sido simples escaras produzidas pela prolongada permanência no leito. De qualquer forma, um alto grau de sugestionabilidade pode fazer com que eles apareçam, independentemente de um contingente mediúnico. Por hipnose já se produziram estigmatizações à simples indução verbal. No caso das chagas imitarem os ferimentos de Jesus, por exaltação religiosa, elas se formam no local em que se supunha que Cristo as tivesse sofrido, isto é, nas palmas das mãos, e não nos carpos, onde verdadeiramente os cravos foram pregados.

Muito provavelmente Liduína, durante seus "arrebatamentos", ao transmitir as tão importantes revelações (que infelizmente ficaram em segredo), estivesse incorporada. O biógrafo não fornece maiores detalhes sobre a maneira como ela recebia e transmitia suas mensagens, mas a condição estática sugere obnubilação da consciência, e a incorporação parece ser o que tenha ocorrido.

Dentre suas previsões, uma foi a de um incêndio na cidade. Quando o fogo atingiu sua casa, os parentes quiseram removê-la, mas Liduína afirmou que nada sofreria e, de fato, o incêndio não chegou a lhe causar danos.

De outra feita, uns homens numa taverna falavam sobre ela, com comentários desairosos, chamando-a de hipócrita e fingida. Um dentre eles, porém, a defende, dizendo serem autênticos os fenômenos que produzia. Otagero era seu nome. No outro dia, Liduína chama seu confessor (não o das galinhas) e pede que vá agradecer àquele homem o que por ela fizera na véspera.

Em outra oportunidade, Liduína assiste à morte de um conhecido, Gerardo, sem sair de seu leito.

Em certa ocasião, ao ser visitada por uns religiosos, passou a lhes descrever o interior de seu convento, onde nunca havia estado.

Liduína enxergava, freqüentemente, seu "Anjo da Guarda", com o qual por vezes dialogava. Certa feita, Catarina de Simon, amiga da enferma, mostrou desejos de ver o anjo de que Liduína tanto falava. A doente pede e o "anjo" aparece, chegando a causar perturbação em sua amiga, principalmente pela expressão de seu olhar. Foi ele visto na aparência de um jovem, envergando uma túnica branca. Nada de asas ou auréolas.

Em certa noite, notam os moradores da casa que do quarto de Liduína vinha um estranho clarão. Pensando ser um incêndio, correm para lá, mas a enferma os tranqüiliza, pois que nada havia ali. Pouco depois, lá estava ela a conversar com seu anjo protetor, cujo manto resplandecia.

Sobre o Anjo da Guarda, a obra que estamos consultando traz curiosíssimos e instrutivos comentários. Sobre a maneira como Liduína o via, diz o livro:

"Ela o percebia nas aparências de um jovem que trazia na fronte uma cruz resplandecente. Graças a este sinal, podia distingui-lo do anjo das trevas, quando se disfarçava em anjo de luz, para melhor a enganar".

Tudo isto, como se vê, está perfeitamente concordante com os ensinos espíritas. Na verdade, embora a um Espírito inferior não seja impossível alterar sua forma perispiritual de sorte a se assemelhar a outra entidade, para assim mistificar os médiuns, jamais consegue imitar a luz que portam os Espíritos superiores, pois que esta é um patrimônio que se conquista.

Eis outro comentário digno de nota:

"Infelizmente em nossos dias parece muito diminuída a fé e a crença no doce companheiro de todos os nossos passos, o fiel Anjo da Guarda, dado por Deus a todos. Às mais das vezes pensamos que é uma devoção boa para as crianças, assim que a arte cristã se limita a representar o Santo Anjo apenas como protetor e defensor dos pequenos. É um erro, pois o celestial amigo nos acompanha até ao túmulo e, segundo visões de Santa Liduína, até no Purgatório, deixando-nos somente ao ingressarmos no Céu".

Mais adiante, diz o biógrafo:

"O Anjo de Liduína afastava-se e desaparecia toda vez que ela cometia alguma imperfeição".

Não resistimos à tentação de transcrever aqui um trecho de O Livro dos Espíritos de Kardec, cujo sentido tão próximo está do que foi escrito sobre Liduína, que quase diríamos não ser a obra basilar do Espiritismo desconhecida do autor que escreveu sobre a "santa dos doentes".

Vejamos o que diz a primeira obra espírita publicada, a partir da questão 490:

"Que se deve entender por anjo da guarda?"

"O Espírito protetor de uma ordem elevada".

"O Espírito protetor é ligado ao indivíduo desde o nascimento?"

"Desde o nascimento até a morte, e freqüentemente o segue depois da morte, na vida espírita e mesmo através de numerosas existências corpóreas (...)".

"O Espírito protetor abandona às vezes o protegido, quando este se mostra rebelde às suas advertências?"

"Afasta-se, quando vê que seus conselhos são inúteis e é mais forte a vontade do protegido em submeter-se à influência dos Espíritos inferiores, mas não o abandona completamente e sempre se faz ouvir (...)".

"Há uma doutrina que deveria converter os mais incrédulos, por seu encanto e por sua doçura: a dos anjos da guarda. Pensar que tendes sempre ao vosso lado seres que vos são superiores, que estão sempre ali para vos aconselhar, vos sustentar (...) que são amigos mais firmes e devotados que as mais íntimas ligações que se possam contrair na Terra, não é essa uma idéia bastante consoladora? Esses seres ali estão por ordem de Deus".

Como se vê, alguns irmãos de outros credos, que esconjuram o Espiritismo ou escarnecem dos que nele crêem, ou não entendem nada do Espiritismo, ou não entendem nada de suas próprias religiões. Mas pode ser também que não entendem das duas coisas...

fevereiro/1980

FENÔMENOS MEDIÚNICOS NA VIDA DOS SANTOS

Sylvio Ourique Fragoso



Parte VII



Santa Thereza de Jesus

Deixando de falar de suas visões, Thereza de Jesus descreve também fenômenos de levitação que apresentou em momentos especiais, que chamou de "arroubamentos". Diz ela:

"(...) no arroubamento não há meio de resistência (...) e é tal sua violência que muitas vezes queria eu resistir e empregava todas as minhas forças, especialmente algumas vezes, que se dava o fato em público (...) algumas vezes se me erguia todo o corpo (...) outras vezes, como começasse a ver que o Senhor ia fazer o mesmo, sendo uma delas na ocasião em que se achavam senhoras das principais famílias (...) deitava-me no chão e chegava a suspender-me o corpo (...)".

Santa Thereza chegava a pedir a Deus que a livrasse do que denominou de "mercês que produzissem sinais exteriores", porque, dizia, estava "já cansada de andar com tanta fama".

Mais adiante a santa descreve com pormenores as sensações que experimentava durante as levitações. Leiamo-la:

"É certo que quando queria resistir, parecia que debaixo dos pés me levantavam forças tão grandes que não sei com que compará-las, tal a impetuosidade com que isto se dava".

Houve ocasiões em que, mesmo com muito medo, Thereza de Jesus não opôs resistência:

"(...) eu confesso ainda o grande, enormíssimo temor que senti no princípio e que causa o fato de se ver assim levantar um corpo da terra, pois não se perdem os sentidos, apesar de levar o espírito o corpo consigo, e isto se dá com grande suavidade, uma vez que não haja resistência de nossa parte".

O fenômeno de levitação, embora menos freqüente que outros que temos aqui estudado, tem sido constatado ao longo dos tempos, entre todos os povos.

Consta que Simão, o Mago, depois de ter se elevado do solo perante Nero, despencou do ar, fraturando uma perna.

Sulpício Severo fala de um "possesso" que se elevou ao ar à simples aproximação das relíquias de São Martinho.

Quando Juliano, o Apóstata, era iniciado nos Mistérios de Diana, em Éfeso, seu iniciador se elevou pelos ares, juntamente com o iniciando.

Delacour fala de um índio de 19 anos que foi alçado até o teto de uma igreja, onde teria permanecido, sem apoio algum, por cerca de meia hora.

Calmeil (De la Folie) fala de um convento em Uvertat onde, no século XVI, após um jejum austero mantido na quaresma, as freiras passaram a crises convulsivas, sendo algumas arrastadas pelo chão como se puxassem pelas pernas, outras subiam em árvores, de onde desciam de cabeça para baixo, enquanto que outras ainda tinham seus corpos elevados no ar, caindo depois pesadamente. Quase todas sentiam, nesses momentos, uma sensação de queimadura ou formigamento nos pés.

Lembrar-se-ão os leitores que Thereza de Jesus dizia que "debaixo dos pés se levantavam forças tão grandes" que ela não sabia com que as comparar.

A experiência de Dunglas Home é célebre, e dela foi feito um relatório para a Sociedade Dialética de Londres. Esse famoso médium teve seu corpo levantado do solo, saiu flutuando no ar por uma janela do aposento onde estava, entrou por outra, e foi conduzido até uma cadeira onde se sentou. Eis como ele descreve suas sensações:

"Durante essas elevações ou levitações, nada sinto de particular em mim, exceto a sensação do costume, cuja causa atribuo a uma grande abundância de eletricidade nos meus pés (...)".

A sensação nos pés, então, parece ser freqüente em quem experimenta esse tipo de fenômeno.

São muitas as explicações sobre o mecanismo da levitação. O Dr. Fugairon, considerando a repulsão que se exerce entre o ar eletrificado e as pontas de um torniquete fixado sobre o condutor de uma máquina elétrica, julga não ser impossível que uma pessoa perelectrógena, posta em pé sobre um piso mau condutor, possa produzir um fluxo elétrico tal que a eleve do solo.

Outra hipótese, considerando o corpo dos animais como sendo diamagnético, e agindo a Terra como um ímã, explica a levitação como decorrente de uma identidade de polaridade, atingida pelo estado de transe, que provocaria a repulsão dos corpos.

Os experimentos de Crawford (Mecânica Psíquica) demonstram que nos fenômenos de levitação de objetos há uma expansão ectoplasmática (pseudópode) que, saindo do médium, colhe o móvel elevando-o; quando o objeto a ser levantado é muito pesado, o pseudópode ectoplásmico apoia-se no chão e dobrando-se em L, impulsiona o móvel para cima, como o faria uma alavanca. Não é impossível, então, que nos fenômenos de auto-levitação a extensão ectoplasmática, firmando-se no solo pela sua extremidade mais distante do corpo do médium, eleva-o no ar onde o sustenha pela sua outra extremidade, que está em contato íntimo com a organização mediúnica.

Se a expulsão do ectoplasma, nessas ocasiões, se fizer pelos pés, talvez consigamos explicar as sensações que Thereza de Jesus, as freiras de Uvertat e Dunglas Home experimentaram.

De qualquer forma, deve-se lembrar que, considerando em si mesmo, um corpo só é pesado quando se acha na vizinhança de outro, que o atraia. Se de alguma forma a atração gravitacional puder ser anulada, os corpos deixarão de ter peso, pois que este não é uma propriedade que possuam, na verdade. Como bem argumenta Carl Du Prel, é a nossa linguagem que transforma o fato da atração passiva em uma propriedade dos corpos, colocando nestes a causa do peso, que reside fora deles.

Qualquer que seja a mecânica, porém, o certo é que a levitação não é privativa dos santos, ocorrendo igualmente com os chamados "possessos", com heréticos, com índios, com histéricas e com bruxos, o que basta para demonstrar que o fato, conquanto extraordinário, não pode ser considerado milagroso, ao menos no sentido que dão à esta palavra as religiões organizadas.

No Brasil, o médium Mirabelli ficou famoso por suas levitações, de que há fotografias. Consta que também o Pe. José de Anchieta teria levitado algumas vezes e nos registros hagiológicos, parece que ninguém conseguiu exceder a São José de Cupertino, pelos espetaculares vôos que realizava, chegando algumas vezes a carregar consigo pessoas às quais se agarrava, com o medo que a experiência lhe causava.

Não sabemos se os pedidos de Thereza de Jesus para que lhe fossem suprimidos os dotes que produzissem "sinais exteriores" foram atendidos.

Esperemos ao menos que lhe tenham servido para manter o Espírito em elevação, a exemplo do que ocorria com seu corpo enfermo e alquebrado.

janeiro/1980